domingo, 18 de novembro de 2018

As Ervas Amargas

(Comentário Êxodo 12)

Vemos nas "ervas amargosas", que deviam acompanhar os pães asmos, a significação e mesma utilidade moral. Não podemos desfrutar da participação dos sofrimentos de Cristo sem recordarmos o que tornou necessários esses sofrimentos, e esta recordação deve, necessariamente, produzir um espírito de mortificação e submissão, ilustrado, de um modo apropriado, nas ervas amargosas da festa da páscoa. Se o cordeiro assado representa Cristo sofrendo a ira de Deus em Sua Própria Pessoa na cruz, as ervas amargosas mostram que o crente reconhece a verdade que Ele sofreu por nós. "O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Isaías 53:5).

Por causa da leviandade dos nossos corações é bom compreendermos a profunda significação das ervas amargosas. Quem poderá ler os Salmos 6, 22, 38, 69, 88, e 109, sem compreender, em alguma medida, o significado dos pães asmos com ervas amargosas? Uma vida praticamente santa, unida a uma profunda submissão de alma, deve ser o fruto da comunhão verdadeira com os sofrimentos de Cristo, porque é de todo impossível que o mal moral e a leviandade de espírito possam subsistir na presença desses sofrimentos.

Mas, pode perguntar-se se não sente a alma um gozo profundo no conhecimento que Cristo levou os nossos pecados, e que esgotou, inteiramente, por nós, o cálice da ira justa de Deus? Por certo que é assim. E este é o fundamento inabalável de todo o nosso gozo. Mas, poderemos nos esquecer que foi "por nossos pecados" que Ele sofreu? Poderemos perder de vista a verdade, poderosa para subjugar a alma, que o bendito Cordeiro de Deus inclinou a Sua cabeça sob o peso das nossas transgressões? Certamente que não. Devemos comer o nosso cordeiro com ervas amargosas; as quais, não se esqueça, não representam as lágrimas de um sentimentalismo desprezível e superficial, mas sim as experiências profundas e verdadeiras de uma alma que compreende com inteligência espiritual o significado e efeito prático da cruz.

Contemplando a cruz, descobrimos nela aquilo que elimina a nossa culpa e dá doce paz e gozo. Porém, vemos que ela põe de lado, inteiramente, também, a natureza humana—representa a crucificação da "carne" e a morte do "homem velho" (veja-se Romanos, 6:6; Gálatas 2:20; 6:14; Colossenses 2:11). Estas verdades, nos seus resultados práticos, implicam muitas coisas "amargosas" para a nossa natureza: exigem a renúncia própria, a mortificação dos nossos membros que estão sobre a terra (Colossenses 3:5), e a consideração do "homem velho" como morto para o pecado (Romanos 6). Todas estas coisas podem parecer terríveis de encarar; porém, uma vez que se há entrado na casa cujas portas estão manchadas com o sangue vêem-se de uma maneira muito diferente. As mesmas ervas que, para o gosto de um egípcio, eram, sem dúvida, tão amargosas, formavam uma parte integral da festa de redenção de Israel. Aqueles que são remidos pelo sangue do Cordeiro, e conhecem o gozo da comunhão com Ele, consideram como uma "festa" tirar o mal e ter a velha natureza no lugar da morte.

C. H. Mackintosh

sábado, 17 de novembro de 2018

Os Pães Asmos

(Comentário Êxodo 12)

Mas como devia ser comido este cordeiro? "...com pães asmos; com ervas amargosas a comerão". O fermento é empregado, invariavelmente, através das Escrituras, como símbolo do mal. Nunca é usado nem no Velho nem no Novo Testamento como simbolizando alguma coisa pura, santa ou boa. Assim, neste capítulo, a celebração da festa com "pães asmos" é figura da separação prática do mal como resultado próprio de havermos sido lavados dos nossos pecados no sangue do Cordeiro e a própria consequência da comunhão com os Seus sofrimentos. Nada senão pão perfeitamente livre de fermento podia ser compatível com o cordeiro assado. Uma simples partícula daquilo que era figura destacada do mal teria destruído o caráter moral de toda a ordenação. Como poderíamos associar qualquer espécie de mal com a nossa comunhão com Cristo nos Seus sofrimentos? Seria impossível. Todos aqueles que, pelo poder do Espírito Santo, têm compreendido a significação da cruz, não terão dificuldade, pelo mesmo poder, de afastar entre eles o fermento. "Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Peio que façamos festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade" (1 Coríntios 5:7-8). A festa de que se fala nesta passagem é a mesma que, na vida e conduta da Igreja, corresponde à festa dos pães asmos. Esta durava "sete dias"; e a Igreja, coletivamente, e o crente individualmente, são chamados para andar em santidade prática, durante os sete dias, ou seja todo o tempo da sua carreira aqui na terra; e isto, note-se, como resultado imediato de haverem sido lavados no sangue, e tendo comunhão com os sofrimentos de Cristo.

O israelita não deitava fora o fermento a fim de ser salvo, mas, sim, porque estava salvo; e se deixasse de o deitar fora, não comprometia com isso a sua segurança por meio do sangue, mas simplesmente a comunhão com a assembleia. "Por sete dias não se ache nenhum fermento nas vossas casas; porque qualquer que comer pão levedado, aquela alma será cortada da congregação de Israel, assim o estrangeiro como o natural da terra" (versículo 19). O corte de uma alma da congregação corresponde precisamente à suspensão de um cristão da comunhão, quando acede àquilo que é contrário à santidade da presença de Deus. Deus não pode tolerar o mal. Um simples pensamento impuro interrompe a comunhão da alma; e enquanto a mancha produzida por este pensamento não for tirada pela confissão, baseada na intercessão de Cristo, não é possível restabelecer a comunhão (vide 1 João 1:5 -10). O cristão sincero regozija-se nisto; e dá louvores em memória da santidade de Deus (Sl 97:12). Ainda que pudesse, não diminuiria, nem por um momento, o estalão: é seu gozo inexcedível andar na companhia d Aquele que não andará nem por um momento com uma simples partícula de "fermento".

Graças a Deus, nós sabemos que nada poderá jamais partir em dois o laço que une o verdadeiro crente com Ele. Somos salvos pelo Senhor, não com uma salvação temporária ou condicional, mas "com uma eterna salvação" (Isaías 45:17). Porém, salvação e comunhão não são a mesma coisa. Muitas pessoas estão salvas, e não o sabem; e muitas, também, estão salvas sem terem o gozo da salvação. É impossível que eu sinta o gozo de estar sob a verga da porta manchada de sangue, se houver fermento em minha casa. É um axioma na vida divina. Oxalá fosse escrito em nossos corações! A santidade prática, embora não seja a base da nossa salvação, está intimamente ligada com o gozo da salvação. O israelita não era salvo pelos pães asmos, mas, sim, pelo sangue; e todavia o fermento tê-lo-ia cortado da comunhão. E assim quanto ao cristão, ele não é salvo por sua santidade prática, mas pelo sangue; porém se se entrega ao mal, em pensamento, por palavras, ou ações, não terão verdadeiro gozo da salvação, nem verdadeira comunhão com a pessoa do Cordeiro.

É nisto, sem dúvida, que está o segredo de uma boa parte da esterilidade espiritual e falta de paz constante que se observa entre os filhos de Deus. Não praticam a santidade: não guardam a festa dos "pães asmos" (Êxodo 23:15). O sangue acha-se sobre as ombreiras da porta, porém o fermento dentro de suas casas impede-os de gozarem a segurança que o sangue concede. A permissão do mal destrói a nossa comunhão, embora não quebre o laço que nos une eternamente a Deus. Aqueles que pertencem à Igreja de Deus devem ser santos. Não somente foram libertados da culpa e das consequências do pecado, como também da sua prática, do seu poder e do amor do pecado. O próprio fato de haverem sido libertados pelo sangue do cordeiro da páscoa impunha aos israelitas a obrigação de deitarem fora de suas casas o fermento. Não podiam dizer, segundo a linguagem terrível do antinomianismo, "agora que estamos livres, podemos conduzir-nos como nos aprouver". De modo nenhum! Se haviam sido salvos pela graça, era para andarem em santidade. A alma que se aproveita da liberdade da graça divina e da redenção que há em Cristo Jesus para "continuar no pecado" prova claramente que não compreende nem a graça nem a redenção.

A graça não somente salva a alma com uma eterna salvação, como lhe dá uma natureza que se deleita em tudo que pertence a Deus, porque é divina. Nós somos feitos participantes da natureza divina, a qual não pode pecar, porque é nascida de Deus. Andar na energia desta graça é, na realidade, "guardar" a festa dos pães asmos. Não existe "fermento velho" nem "fermento da malícia" (1 Coríntios 5:8) na nova natureza, porque é nascida de Deus e Deus é santo e "Deus é amor". Por isso é evidente que não é com o fim de melhorar a nossa velha natureza, que é irreparável, nem tampouco de obtermos a nova natureza, que tiramos de nós o mal, mas, sim, porque temos o mal em nós. Nós temos a vida e, no poder desta vida, tiramos o mal. É somente quando estamos libertados da culpa do pecado que compreendemos ou exibimos o verdadeiro poder da santidade. Tentar consegui-lo por qualquer outro meio é esforço inútil. A festa dos pães asmos só pode ser guardada sob o abrigo perfeito do sangue.

C. H. Mackintosh


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Como a Páscoa Deveria Ser Comida

(Comentário Êxodo 12)

Veremos agora em pormenor os princípios que nos são apresentados na festa da páscoa. A assembleia de Israel, sob o sangue, tinha de ser organizada pelo Senhor de uma maneira digna de Si Próprio. Quanto à sua segurança contra o juízo, como vimos já, nada era necessário senão o sangue; mas quanto à comunhão que resultava desta segurança eram necessárias outras coisas, que não podiam ser descuradas com impunidade.

E, portanto, lemos, em primeiro lugar: "E naquela noite comerão a carne assada no fogo, com pães asmos; com ervas amargosas a comerão. Não comereis dele nada cru, nem cozido em água, senão assado ao fogo" (versículos 8 a 9). O cordeiro em torno do qual a congregação estava reunida, e com o qual fazia festa, era um cordeiro assado — um cordeiro que tinha sido submetido à ação do fogo. Vemos neste pormenor "Cristo a nossa páscoa" expondo-Se a Si Mesmo à ação do fogo da santidade e da justiça de Deus, que acharam n'Ele um objeto perfeito. Ele pôde dizer: "Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e nada achaste; o que pensei, a minha boca não transgredirá" (SI 17:3).Tudo n'Ele era perfeito. O fogo provou-O e não havia impureza. "A cabeça com os pés e com a fressura". Quer dizer, o centro da Sua inteligência; a Sua vida exterior com tudo quanto lhe pertencia — tudo foi submetido à ação do fogo, e tudo foi achado perfeito.

A maneira como o cordeiro devia ser assado é profundamente significativa, como o são em pormenor as ordenações de Deus. Nada deve ser passado por alto, porque está cheio de significação — "não comereis dele nada cru, nem cozido em água". Se o cordeiro tivesse sido comido assim não teria sido a expressão da grande verdade que prefigurava segundo o propósito divino, isto é: que o nosso Cordeiro da páscoa deveria sofrer, na cruz, o fogo da justa ira de Deus; uma verdade, aliás, preciosa para a alma. Não estamos somente sob a proteção eterna do sangue do Cordeiro, como as nossas almas se alimentam pela fé da pessoa do Cordeiro. Muitos de nós enganamo-nos a este respeito. Estamos prontos a contentarmo-nos por estarmos salvos por meio da obra que Cristo cumpriu a nosso favor sem mantermos uma santa comunhão com Ele Próprio. O Seu coração amoroso nunca poderá contentar-se com isto. Ele trouxe-nos para perto de Si para que pudéssemos apreciá-Lo, alimentarmo-nos d'Ele e regozijarmo-nos n'Ele. Cristo apresenta-Se perante nós como Aquele que sofreu o fogo intenso da ira de Deus, a fim de ser, neste caráter maravilhoso de Cordeiro, alimento para as nossas almas redimidas.

(C. H. Mackintosh)

A Páscoa: o Centro de Comunhão

(Comentário Êxodo 12)

Consideremos agora o segundo aspecto da páscoa, como centro ao redor do qual a assembleia estava reunida em tranquila, santa e feliz comunhão. Israel salvo pelo sangue, era uma coisa; e Israel alimentando-se do cordeiro, era outra muito diferente. Estavam salvos somente pelo sangue; porém o objeto em volta do qual estavam reunidos era, evidentemente, o cordeiro assado. Esta distinção não é, de modo nenhum, absurda. O sangue do Cordeiro constitui o fundamento tanto da nossa ligação com Deus como da nossa conexão uns com os outros. É como aqueles que são lavados pelo sangue que somos levados a Deus e ficamos em comunhão uns com os outros. Aparte a expiação perfeita de Cristo não podia haver evidentemente comunhão nem com Deus nem com a assembleia.

Contudo não devemos esquecer o fato que é para um Cristo vivo nos céus que os crentes são reunidos pelo Espírito Santo. Estamos unidos a um Chefe vivo — fomos levados a uma "pedra viva" (1 Pedro 2:4). O Senhor é o nosso centro. Havendo achado paz pelo Seu sangue, nós reconhecemos que Ele é o nosso grande centro de reunião e o laço que nos une. "Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20). O Espírito Santo é o único que promove a reunião; Cristo é o único objetivo em volta do qual nos reunimos; e a nossa assembleia, assim convocada, deve ser caracterizada pela santidade, de maneira que o Senhor nosso Deus possa habitar entre nós. O Espírito Santo só nos pode reunir para Cristo; não nos pode reunir em torno de um sistema, um nome, uma doutrina ou uma ordenação. Ele reúne para uma Pessoa, e essa Pessoa é Cristo glorificado no céu. É isto que deve dar um caráter peculiar à assembleia (igreja) de Deus. Os homens podem associar-se sobre qualquer base, em volta de qualquer centro ou com qualquer fim que mais lhes agrade; porém, quando o Espírito Santo promove a associação, fá-lo sobre o fundamento da redenção efetuada e em redor da Pessoa de Cristo, com o fim de edificar um templo santo para Deus (1 Coríntios 3:16-17; 6:19; Efésios 2:21-22; 1 Pedro 2:4-5).

C. H. Mackintosh

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A Morte de Cristo na Cruz

(Comentário Êxodo 12)

Desejo recordar também ao leitor que a vida de obediência de Cristo não é apresentada nas Escrituras como meio de alcançar o nosso perdão. Foi a Sua morte na cruz que abriu as comportas eternas do amor, que, de outra maneira, ficariam fechadas para sempre. Se o Senhor Jesus continuasse até este próprio momento percorrendo as cidades de Israel e "fazendo bem" (Atos 10:38) o véu do templo continuaria inteiro, para impedir a entrada do adorador na presença de Deus. Foi a Sua morte que rasgou essa misteriosa cortina "de alto abaixo" (Marcos 15:38). Foi pelas suas "pisaduras", e não pela Sua vida de obediência, que nós "fomos sarados" (Isaías 53:5; 1 Pedro 2:24); e foi na cruz que Ele suportou essas "pisaduras", e não em nenhuma outra parte. As Suas próprias palavras, pronunciadas durante o curso da Sua vida bendita, são mais que suficientes para tomar este ponto claro. "Importa, porém, que eu seja batizado com um certo batismo, e como me angustio até que venha a cumprir-se!" (Lucas 12:50).

A que se refere esta declaração senão à Sua morte na cruz como cumprimento desse batismo que abriu uma saída justa através da qual o Seu amor pudesse correr livremente até aos culpados filhos de Adão? De outra vez, o Senhor diz: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer fica só" (João 12:24). Ele era esse precioso "grão de trigo"; e teria ficado para sempre "só", se, apesar de haver incarnado, não tivesse, por meio da Sua morte sobre o madeiro, tirado tudo aquilo que pudesse impedir a união do Seu povo Consigo na ressurreição. "Mas se morrer, dá muito fruto." O leitor nunca poderá considerar com demasiada atenção este assunto tão solene e tão importante. Existem nele dois pontos relativos a esta questão, que convém recordar sempre, a saber: que não podia haver união possível com Cristo senão na ressurreição; e que Cristo sofreu somente na cruz pelos pecados. Não devemos imaginar, de modo nenhum, que Cristo nos uniu a Si por meio da incarnação. Isto não era possível. Como poderia a nossa carne pecaminosa unir-se assim com Ele? O corpo do pecado tinha de ser desfeito pela morte.

O pecado tinha de ser tirado, exigia-o a glória de Deus; todo o poder do inimigo devia ser abolido. Como poderia conseguir-se isto? Somente pela submissão do precioso, imaculado Cordeiro de Deus na morte da cruz. "Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse feias aflições, o príncipe da salvação deles" (Hebreus 2:10). "...Eis que eu expulso demônios, e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado" (Lucas 13:32). As expressões "consagrasse", e "consumado" nas passagens acima mencionadas não se relacionam com Cristo de uma maneira abstrata, porquanto, como Filho de Deus, Ele era perfeito desde toda a eternidade, e no tocante à Sua humanidade foi de igual modo absolutamente perfeito. Contudo, como príncipe da nossa salvação — como Aquele que havia de trazer muitos filhos à glória, dando assim muito fruto —, e para associar Consigo um povo redimido, Ele teve de chegar ao "terceiro dia" a fim de ser "consumado" ou "consagrado"; desceu sozinho ao "lago horrível, um charco de lodo"; porém, pôs imediatamente os Seus "pés sobre a rocha" da ressurreição, e associou "muitos filhos" Consigo (Sl 40:1-3); combateu sozinho na batalha; porém, como vencedor poderoso, espalha à Sua roda, em rica profusão, os despojos da vitória, para que nós pudéssemos ajuntá-los e desfrutar deles eternamente.

Além disso, não devemos considerar a cruz de Cristo como um simples incidente numa vida de expiação pelo pecado. A cruz foi o grande e único ato de expiação pelo pecado: "Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pedro 2:24). Não os levou em parte alguma mais.

Não foi na manjedoura que os tomou sobre Si, nem no jardim do Getsêmani, nem no deserto, mas SOMENTE "SOBRE O MADEIRO". O Senhor nada teve a ver com o pecado, salvo na cruz; e foi ali que Ele inclinou a Sua bendita cabeça e deu a Sua preciosa vida sob o peso acumulado dos pecados do Seu povo. Nem tampouco jamais sofreu às mãos de Deus, salvo na cruz; e ali o Senhor escondeu o Seu rosto d'Ele porque O fez "pecado por nós" (2 Coríntios 5).

Esta série de pensamentos, e as várias passagens a que se faz referência, podem, talvez, ajudar o leitor a compreender mais claramente o poder divino das palavras: "vendo eu sangue passarei por cima de vós". Era absolutamente necessário que o cordeiro fosse sem mácula, pois de contrário como poderia satisfazer o olhar santo do Senhor? Porém, se o sangue não tivesse sido derramado o Senhor não poderia ter passado por cima do Seu povo, porque "sem derramamento de sangue não há remissão" (Hebreus 9:22). Teremos outra vez ocasião de meditar sobre este assunto, se o Senhor permitir, de uma maneira mais clara e apropriada nas figuras de Levítico. É um assunto que requer a atenção profunda de todos aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo em sinceridade.

C. H. Mackintosh

domingo, 11 de novembro de 2018

O Sangue de Cristo: o Fundamento da Paz do Crente

(Comentário Êxodo 12)

A nossa inclinação natural é buscarmos em nós ou nas coisas alguma coisa que possa constituir, junto com o sangue de Cristo, o fundamento da nossa paz. Existe uma falta lamentável de compreensão e clareza sobre este ponto vital, como se verifica pelas dúvidas e receios com que muitos do povo de Deus são afligidos. Somos inclinados a pensar nos frutos do Espírito em nós, em vez de pensarmos na obra de Cristo por nós, como fundamento da nossa paz.

Vamos ver agora o lugar que ocupa a obra do Espírito Santo na cristandade; porém, esta obra nunca é apresentada nas Escrituras como sendo a base em que assenta a nossa paz. O Espírito Santo não fez a paz, mas Cristo. Não é dito que o Espírito seja a nossa paz, mas sim Cristo. Deus não mandou anunciar a paz pelo Espírito Santo, mas por Jesus Cristo (comparem-se Atos 10:36; Efésios 2:14,17; Colossenses 1:20). Jamais poderemos compreender com demasiada nitidez esta diferença importante. E só pelo sangue de Cristo que obtemos a paz, justificação perfeita e justiça divina; ele purifica a nossa consciência, introduz-nos no lugar santíssimo, faz com que Deus seja justificado recebendo o pecador contrito, e dá-nos o direito a todos os gozos, todas as honras e todas as glórias do céu (veja-se Romanos 3:24 -26; Efésios 2:13-18; Colossenses l:20a22;Hb 9:14; 10:19; 1 Pedro 1:19; 2:24; 1 João l:7; Ap 7:14-17).

Ao procurar pôr "o precioso sangue de Cristo" no seu lugar divinamente marcado, espero sinceramente que ninguém suponha que pretendo escrever uma só palavra que possa menosprezar a importância da obra do Espírito Santo. Deus me livre disso! O Espírito Santo revela-nos Cristo, faz-nos conhecê-Lo, permite-nos alegrarmo-nos e alimentarmo-nos d'Ele; é o Espírito Quem toma das decisões de Cristo e no-las mostra. O Espírito é o poder de comunhão, o selo, a testemunha, a garantia, e a unção. Em resumo; todas as benditas operações do Espírito são absolutamente essenciais. Sem Ele não podemos ver, saber, nem ouvir, nem sentir, nem experimentar, nem gozar, nem manifestar nada de Cristo. Tudo isto é bem claro. A doutrina das operações do Espírito é claramente exposta nas Escrituras, e é recebida e compreendida por todo o crente fiel e bem esclarecido.

Todavia, não obstante tudo isto, a obra do Espírito não é o fundamento da paz; porque, se o fosse, não poderíamos desfrutar de uma paz segura até à vinda de Cristo, visto que a obra do Espírito, na Igreja, não terminará, propriamente falando, até então. O Espírito prossegue a Sua obra no crente: ".. .O mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Romanos 8:26), e esforça-Se por nos fazer chegar àquela estatura para a qual havemos sido chamados, a saber: uma perfeita semelhança, em todas as coisas, à imagem do "Filho"; Ele é o único autor de todo o desejo bom, de toda a aspiração santa, todo afeto puro, de toda a experiência divina, e de toda a convicção sã; porém, é evidente que a sua obra em nós não estará completa antes de termos deixado a cena presente deste mundo para tomarmos o nosso lugar com Cristo na glória. Assim como o servo de Abraão não terminou a sua missão a respeito de Rebeca antes de a ter apresentado a Isaque.

Não sucede assim com a obra de Cristo por nós. Essa obra está absoluta e eternamente completa. O Senhor pôde dizer: "Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer" (João 17:4). E logo depois: "Está consumado" (João 19:30). Contudo o Espírito Santo não pode dizer que tem acabado a Sua obra. Como verdadeiro vigário de Cristo na terra, continua trabalhando no meio das diversas influências adversas que rodeiam a esfera da Sua atividade e no coração dos filhos de Deus para os fazer chegar de uma maneira prática e experimental à altura do modelo divinamente eleito. Porém, nunca ensina a alma a depender da Sua obra para ter paz na presença de Deus. A Sua missão é falar de Jesus: não fala de Si Mesmo. "Ele", diz Cristo,"...há de receber do que é meu e vo-lo há de dar" (João 16:14). Se, portanto, é somente pelo ensino do Espírito que alguém pode compreender o verdadeiro fundamento da paz, e se o Espírito nunca fala de Si Mesmo, é evidente que só pode apresentar a obra de Cristo como o fundamento sobre o qual a alma deve descansar para sempre; ainda assim, é em virtude dessa obra que o Espírito faz a Sua morada e cumpre as Suas maravilhosas operações no coração do crente. Ele nos revela Cristo e nos faz capazes de compreendê-lo e gozar dEle.

Por isso, o cordeiro da páscoa, como fundamento da paz de Israel, é um tipo admirável e magnífico de Cristo, como fundamento da paz do crente. Nada havia a acrescentar ao sangue posto sobre a ombreira da porta; tampouco nada mais há a acrescentar ao sangue posto sobre o propiciatório. Os "pães asmos" e as "ervas amargosas" eram coisas necessárias, mas não como formando, no todo ou em parte, o fundamento da paz. Deviam ser usadas no interior da casa e constituíam os sinais característicos da comunhão; porém, O FUNDAMENTO DE TUDO ERA O SANGUE DO CORDEIRO. Foi ele que salvou os israelitas da morte e os introduziu numa nova cena de vida, de luz e de paz, formando o laço de união entre Deus e o Seu povo redimido. Como povo ligado com Deus sobre o fundamento da redenção cumprida, era seu alto privilégio serem colocados debaixo de certas responsabilidades; mas essas responsabilidades não formavam o laço de união, mas eram a consequência natural dele.

C. H. Mackintosh

sábado, 10 de novembro de 2018

"Vendo Eu Sangue..."

(Comentário Êxodo 12)

Note-se que o israelita não descansa sobre os seus próprios pensamentos, nos seus sentimentos ou na sua experiência, a respeito do sangue. Isto teria sido descansar sobre um fundamento fraco e movediço. Os seus pensamentos e os seus sentimentos podiam ser profundos ou superficiais: mas, quer fossem profundos, quer superficiais, nada tinham que ver com o fundamento da sua paz. Deus não havia dito: "vendo vós o sangue, e avaliando-o como ele deve ser avaliado, eu passarei por cima de vós". Isto teria bastado para lançar um israelita em profundo desespero quanto a si próprio, visto que é impossível para o espírito humano apreciar o valor do precioso sangue do Cordeiro de Deus. O que dava paz era a certeza de que os olhos do Senhor estavam postos sobre o sangue, e que Ele apreciava o seu valor. Isto tranquilizava o coração. O sangue estava de fora da porta, e o israelita encontrava-se dentro de casa, de modo que não podia ver aquele sangue; mas Deus o via, e isso era perfeitamente suficiente.

A aplicação deste fato à questão da paz do pecador é bem clara. O Senhor Jesus Cristo, havendo derramado o Seu precioso sangue, em expiação perfeita pelo pecado, levou esse sangue à presença de Deus, e fez ali aspersão dele; e o testemunho de Deus assegura o crente de que as coisas estão liquidadas a seu favor—liquidadas, não pelo apreço que ele dá ao sangue, mas, sim, pelo próprio sangue, que tem um tão grande valor para Deus, que, por causa desse sangue, sem mais um jota ou um til, Ele pode perdoar com justiça todo o pecado e aceitar o pecador como um ser perfeitamente justo em Cristo. Como poderia alguém desfrutar paz segura se a sua paz dependesse da sua apreciação do sangue?- Seria impossível! A melhor apreciação que o espírito humano possa tomar do sangue estará sempre infinitamente abaixo do seu valor divino; e, portanto, se a nossa paz dependesse da apreciação que lhe devíamos dar, nós jamais poderíamos gozar de uma paz segura, e seria o mesmo que se a buscássemos pelas obras da lei (Romanos 9:32; Gálatas 2:16; 3:10). O fundamento de paz ou há de ser somente o sangue, ou então nunca teremos paz. Juntar-lhe o valor que nós lhe damos, é derrubar todo o edifício do cristianismo, precisamente como se conduzíssemos o pecador ao pé do monte Sinai e o puséssemos debaixo do concerto da lei. Ou o sacrifício de Cristo é suficiente ou não é. Se é suficiente, por que essas dúvidas e temores? As palavras dos nossos lábios confessam que a obra está cumprida, mas as dúvidas e temores do coração declaram que não. Todo aquele que duvida do seu perdão perfeito e eterno, nega, tanto quanto lhe diz respeito, o cumprimento do sacrifício de Cristo.

Há muitas pessoas que fogem da ideia de pôr em dúvida deliberada e abertamente a eficácia do sangue de Cristo, mas que, todavia, não têm uma paz segura. Estas pessoas dizem estar completamente convencidas da suficiência do sangue de Cristo, desde que possam estar certas de ter parte nele — desde que possam ter a verdadeira fé. Há muitas almas preciosas nesta infeliz condição. Ocupam-se mais da sua fé e dos seus interesses do que com o sangue de Cristo e a palavra de Deus. Por outras palavras, olham para o seu íntimo, em vez de olharem para Cristo. Isto não é o procedimento da fé, e, por conseguinte, carecem de paz. O israelita protegido pela umbreira da porta manchada de sangue podia dar a estas almas uma lição muito apropriada — não fora salvo pelo interesse que tinha no sangue nem pelos seus pensamentos acerca dele, mas simplesmente pelo próprio sangue. Sem dúvida, ele tinha uma parte bem-aventurada no sangue; assim como os seus pensamentos também estavam postos nele; porém, Deus não havia dito: "Vendo eu o vosso apreço pelo sangue passarei por cima de vós". Ah! não; o SANGUE, com o seu mérito exclusivo e eficácia divina estava posto perante Israel; e se eles tivessem tentado pôr só que fosse um bocado de pão asmo ao lado do sangue, como base de segurança, teriam feito do Senhor mentiroso e negado a suficiência do Seu remédio.

C. H. Mackintosh

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