sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A Disciplina na Assembleia

HÁ um "dentro" em relação à assembleia. Lemos: "Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora" (1 Coríntios 5:12,13). "Fora" é a esfera do mundo. O cristão deve deixar o julgamento do mundo para Deus. Não é a esfera do cristão interferir naquilo que está "fora". "Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor" (Romanos 12:19). "Dentro" é a esfera da assembleia. A assembleia deveria ser marcada pela santidade. Os santos são chamados "templo santo no Senhor" (Efésios 2:21), um lugar onde Deus habita e a santidade se torna Sua casa.

A disciplina deve ser mantida na casa de Deus. Precisamos observar cuidadosamente, nas Escrituras, que forma ela toma, e quem deve ser submetido a sua ação. Podemos ser frouxos e permitir aquilo que enfraqueceria grandemente o testemunho de Deus, ou podemos ser duros e exigentes demais, além do que as Escrituras justificam. Há sempre uma tentação da carne religiosa de se colocar num trono de juízo, o que não vem de Deus. Temos instruções quanto à disciplina em 1 Coríntios 5. Naquela assembleia, havia um homem culpado de horrível incesto. Os santos de Corinto, educados em um ambiente de licenciosidade, que era típico da adoração pagã, não ficaram entristecidos nem preocupados sobre o mal em seu meio. Eles precisavam das instruções de Deus, e, tendo as recebido, a igreja como um todo deveria tirar proveito delas também no tempo presente. 

O apóstolo Paulo trouxe diante deles a profunda seriedade da questão. Ele os instruiu a tirar de comunhão esse homem culpado de tal iniquidade. Ele os exorta: "Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento" (1 Coríntios 5:7). Posicionalmente, à vista de Deus, eles eram sem fermento, e, sendo assim, deveriam também estar sem fermento na prática. A condição deles deveria corresponder ao que eles eram à vista de Deus no terreno do sacrifício de Cristo por eles na cruz. O objetivo desse sumário julgamento era: "Seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus" (1 Coríntios 5:5). A excomunhão era uma coisa terrível naqueles dias. "Dentro" era a esfera onde Deus era conhecido, e de onde a luz de Sua verdade irradiava. "Fora" indicava o mundo do paganismo e do judaísmo, a esfera de Satanás. Alguém pode ter pensado que a excomunhão desse santo pecador seria para sua destruição. Mas não: era para a destruição da carne. Seria assim para que seu espírito fosse salvo no dia do Senhor Jesus. A disciplina da casa de Deus é para a bênção e recuperação daquele disciplinado. A excomunhão é um assunto solene em qualquer época, mas, nos dias apostólicos, estar fora da assembleia de Deus sobre a terra implicava estar fora de tudo o que tinha a ver com o Cristianismo, e ser lançado na esfera de Satanás. As Escrituras ensinam claramente que a disciplina do Senhor, que pode vir em conexão com a disciplina da assembleia, é tida com o objetivo de bênção no final. Lemos: "Quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo" (1 Coríntios 11:32). 

Somos felizes em seguir o efeito saudável que a disciplina teve nesse homem incestuoso. O apóstolo Paulo escreveu uma segunda epístola à assembleia em Corinto e se referiu longamente a esse caso. A primeira epístola teve seu devido efeito de trazer os santos de Corinto a um profundo senso do pecado em seu meio. O apóstolo pôde escrever: "Porque quanto cuidado não produziu isso mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio" (2 Coríntios 7:11). Parece que os santos de Corinto quase foram longe demais em seu zelo, assim como antes tinham sido frouxos demais. O homem tinha se arrependido de seu pecado e foi restaurado pelo Senhor. Os santos de Corinto tiveram que ser exortados a perdoá-lo, a consolá-lo e a confirmar seu amor para com ele (2 Coríntios 2:7-8). A carne gosta de ser dura às vezes. É necessário o Espírito Santo de Deus, o espírito de amor e graça, e também fidelidade ao Senhor, para nos guiar na restauração de alguém que erra, que pecou e se arrependeu. É mais fácil cortar do que restaurar, mais fácil derrubar do que construir.

É muito útil que a página inspirada tenha colocado diante de nós quais são os desvios de santidade que exigem a excomunhão. Lemos: "Mas, agora, escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais" (1 Coríntios 5:11). Esta é uma séria lista que nos é dada, e forma um guia para nós sobre esse assunto solene. A disciplina poderia ser realizada com demasiada severidade se não tivéssemos essa lista. Nem todo erro exige excomunhão. Timóteo é instruído pelo apóstolo Paulo: "Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor" (1 Timóteo 5:20). Evidentemente, o pecado nesse caso não era de natureza tão grave a ponto de exigir a excomunhão: uma repreensão pública bastava, e ajudaria aqueles que, ouvindo-a, evitassem um pecado similar. 

Novamente, lemos o apóstolo dando instruções de que, se um homem fosse surpreendido em alguma falta, os espirituais entre eles deveriam restaurá-lo, lembrando-se que eles também poderiam ser tentados (Gálatas 6:1). Assim também o escritor Tiago deu a exortação de que devemos confessar nossos erros uns aos outros, e orar uns pelos outros, para que possamos receber a cura (Tiago 5:16). Novamente, lemos: "Irmãos, se algum de entre vós se tem desviado da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de pecados" (Tiago 5:19,20). Essas passagens mostram que deve haver paciência e graça em alguns casos, e em outros, não a excomunhão, mas uma repreensão pública é o suficiente.

Temos instruções úteis espalhadas por toda a Palavra de Deus sobre esse assunto. Lemos: "Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebeu" (2 Tessalonicenses 3:6). "Agora peço-vos, irmãos, que marqueis aqueles que causam divisões e ofensas, contrárias à doutrina que aprendemos: e evitai-os. Pois os que são assim não servem ao nosso Senhor Jesus Cristo, mas a seus próprios ventres; e por boas palavras e justos discursos enganam os corações dos simples" (Romanos 16:17,18, KJV). Essas instruções são claras o bastante.

Há uma última passagem, no entanto, que gostaríamos de chamar a atenção. Refere-se ao ensino herético quanto à Pessoa de nosso adorável Senhor. O apóstolo João, já idoso, escrevendo a uma senhora e seus filhos, fala-lhes de quão seriamente o Espírito Santo de Deus via tais ensinamentos. Bem sabe-se que esses ensinos heréticos eram muito comuns nos primeiros séculos da história da igreja, e continuam sendo até hoje. Lemos: "Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus; quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras" (2 João 9-11). Não basta que o cristão esteja limpo pessoalmente desse ensino maligno, pois subverte o Cristianismo, mas o cristão deve também ser limpo das pessoas que ensinam essas coisas. Qualquer que estiver pessoalmente limpo do ensino maligno, e ainda assim permanecer em comunhão com um mestre dessa má doutrina, é participante de suas más obras, e portanto deve ser recusado do mesmo modo que o próprio autor do ensino herético.

Que o Senhor nos dê zelo espiritual para a santidade da casa de Deus, corações que anseiam e entranhas de compaixão que sintam pelos errantes, desordenados e pelos que estão em pecado, e nos dê graça para receber de volta um santo arrependido e para confirmar nosso amor para com ele.

A. J. Pollock

Fonte: https://bibletruthpublishers.com/the-discipline-of-the-assembly/algernon-james-pollock/the-church-of-god/a-j-pollock/la59660

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O Altar de Cobre e o Altar de Ouro

(Comentário Êxodo 30 - O CULTO, A COMUNHÃO E A ADORAÇÃO)

Tendo sido instituído o sacerdócio, como mostrado nos dois capítulos anteriores, somos aqui introduzidos à posição de verdadeira adoração e comunhão sacerdotal. A ordem é marcante e instrutiva; e, além disso, corresponde precisamente à ordem da experiência do crente. No altar de bronze, ele vê as cinzas de seus pecados; ele então vê a si mesmo ligado Àquele que, embora fosse pessoalmente puro e imaculado, de forma que podia ser ungido sem sangue, mesmo assim nos associou com Ele próprio em vida, justiça e favor; e, finalmente, ele vê, no altar de ouro, a preciosidade de Cristo, como a substância da qual se alimentam as afeições divinas.

Assim é sempre; deve haver um altar de bronze e um sacerdote antes de haver um altar de ouro e incenso. Muitos dos filhos de Deus nunca passaram do altar de bronze. Nunca entraram, em espírito, no poder e realidade da verdadeira adoração sacerdotal. Não se regozijam em um senso pleno, claro e divino do perdão e da justiça; nunca chegaram ao altar de ouro. Eles esperam alcançá-lo quando morrerem; mas na verdade é um privilégio que podem ter agora mesmo. A obra de cristo removeu do caminho tudo o que poderia se pôr como barreira à adoração livre e inteligente. A posição atual de todo verdadeiro crente é diante do altar de ouro do incenso.

Esse altar tipifica uma posição de maravilhosa bênção. Ali desfrutamos da realidade e eficácia da intercessão de Cristo. Tendo definitivamente acabado com o ego e tudo o que lhe diz respeito, ainda que dele esperássemos algum bem, devemos estar ocupados com quem Ele (Cristo) é diante de Deus. Não encontraremos nada no ego, a não ser contaminação. Toda a exibição do ego é contaminada; ele foi condenado e deixado de lado no juízo de Deus, e nenhum fragmento ou partícula dele será achado no incenso puro e no fogo puro, no altar de ouro puro: isso seria impossível. Fomos introduzidos, "pelo sangue de Jesus", no santuário -- um santuário de serviço e adoração sacerdotal no qual não há sequer um traço de pecado. Vemos a mesa pura, o candelabro puro, e o altar puro; mas não há nada ali para nos fazer lembrar do ego (de nós mesmos) e de sua miséria. Se fosse permitido ao ego encher nossa vista diante desse altar, apenas provaria ser uma adoração morta, estragaria nosso alimento sacerdotal, e turvaria nossa luz. A natureza não pode ter lugar no santuário de Deus. Ela, juntamente com tudo o que lhe pertence, foi consumida pelo fogo até as cinzas; e devemos agora ter diante de nossas almas o perfume fragrante de Cristo, subindo em agradecido incenso a Deus: é nisso que Deus se deleita. Tudo o que apresenta Cristo em Sua própria excelência é doce e aceitável para Deus. Até a mais débil expressão ou exibição dEle, na vida ou na adoração de um santo, é um cheiro de doce perfume no qual Deus acha o Seu prazer.

Com demasiada frequência, infelizmente, temos que estar ocupados com nossos fracassos e fraquezas. Se permitirmos que as obras do pecado que habita em nós sejam levadas à superfície, teremos de lidar com nosso Deus sobre elas, pois Ele não pode tolerar o pecado. Ele pode perdoá-lo e limpar-nos dele; Ele pode restaurar nossas almas pelo ministério gracioso de nosso grande Sumo Sacerdote; mas Ele não pode tolerar a companhia de nem mesmo um único pensamento pecaminoso. Seja um leve ou tolo pensamento ou um impuro e cobiçoso, é o suficiente para estragar uma comunhão cristã e interromper sua adoração. Se tal tipo de pensamento surgir, deve ser julgado e confessado antes que as alegrias elevadas do santuário possam ser conhecidas novamente. Um coração em que a concupiscência está operando não está desfrutando das ocupações adequadas ao santuário. Quando estamos em uma condição sacerdotal adequada, é como se a natureza não existisse; e então podemos nos alimentar de Cristo. Podemos provar do conforto divino de estarmos totalmente à vontade com Ele, e totalmente absorvidos com Cristo.

Tudo isso só pode ser produzido pelo poder do Espírito. Não há necessidade de produzir sentimentos naturais de devoção por meio dos vários aparelhos usados na religião sistemática. Deve haver fogo puro, assim como incenso puro (Compare Lev. 10:1 com Lev. 16:12). Qualquer esforço de adoração a Deus vindo dos poderes ímpios da natureza está incluído na categoria de "fogo estranho". Deus é o objeto de adoração; Cristo, o terreno e substância da adoração; e o Espírito Santo o poder da adoração.

Propriamente falando, então, assim como temos, no altar de bronze, Cristo no valor de Seu sacrifício, assim também temos, no altar de ouro, Cristo no valor de Sua intercessão. Isso fornecerá ao meu leitor uma noção ainda mais clara do motivo pelo qual o ofício sacerdotal é introduzido entre os dois altares. Há, como seria de se esperar, uma conexão íntima entre os dois, pois a intercessão de Cristo tem como fundamento Seu sacrifício. "E uma vez no ano Arão fará expiação sobre as pontas do altar com o sangue do sacrifício das expiações; uma vez no ano fará expiação sobre ele pelas vossas gerações; santíssimo é ao Senhor" (v. 10). Tudo repousa sobre o fundamento imutável do SANGUE DERRAMADO. "E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus" (Hebreus 9:22-24).

C. H. Mackintosh

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A Preeminência de Cristo

(Comentário Êxodo 29 - A CONSAGRAÇÃO DO SACERDOTE)

Porém, aprendemos alguma coisa mais com a ordem da unção neste capítulo, além da verdade importante acerca da obra do Espírito, e a posição que a Igreja ocupa. A preeminência do Filho é-nos também apresentada. "Amaste a justiça e aborreceste a inquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros" (Sl 45:7; Hebreus 1:9). É preciso que o povo de Deus mantenha sempre esta verdade nas suas convicções e experiências. Por certo, a graça infinita de Deus é manifestada no fato maravilhoso que pecadores culpados e dignos do inferno sejam chamados companheiros do Filho de Deus; mas nunca devemos esquecer, nem por um momento, o vocábulo "mais". Por mais íntima que seja a união — e é tão íntima quanto os desígnios eternos do amor divino a podiam fazer — , é, contudo, necessário que Cristo "tenha em tudo a preeminência" (Colossenses 1:18). Não podia ser de outra maneira. Ele é Cabeça sobre todas as coisas — Cabeça da Igreja, Cabeça sobre a criação, Cabeça sobre os anjos, o Senhor do universo. Não existe um só astro de todos os que se movem no espaço que não Lhe pertença e não se mova sob a Sua orientação. Não existe um verme sequer que se arrasta sobre a terra, que não esteja sob os Seus olhos incansáveis. Ele está acima de todas as coisas; é "o primogênito de entre os mortos""o princípio da criação de Deus" (Colossenses l:15-18; Ap 1:5). "Toda a família nos céus ena terra" (Efésios 3:15) deve se alinhar, na classe divina, sob Cristo. Tudo isto será reconhecido com gratidão por todo o crente espiritual; sim, a sua própria articulação produz um estremecimento no coração do crente. Todos os que são guiados pelo Espírito regozijar-se-ão com cada nova manifestação das glórias pessoais do Filho; da mesma maneira que não poderão tolerar qualquer coisa que se levante contra elas. Que a Igreja se eleve às mais altas regiões e glória, será seu gozo ajoelhar aos pés d'Aquele que se baixou para a elevar, em virtude do Seu sacrifício, à união Consigo; o qual havendo plenamente correspondido a todas as exigências da justiça divina, pode satisfazer todos os afetos divinos, unindo-a em um Consigo Mesmo, em toda a aceitação infinita com o Pai, na Sua glória eterna: "Não se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hebreus 2:11).

Nota: Evitei propositadamente tocar no assunto das ofertas no capítulo 29 visto que teremos ocasião de considerar as diferentes classes de sacrifícios, por sua ordem, nos nossos estudos sobre o Livro de Levítico, se o Senhor permitir.

C. H. Mackintosh

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A Lavagem com Água e a Unção

(Comentário Êxodo 29 - A CONSAGRAÇÃO DO SACERDOTE)

A Lavagem com Água


Já frisamos que Arão e seus filhos representam Cristo e a Igreja, porém nos primeiros versículos deste capítulo é dado o primeiro lugar a Arão. "Então, farás chegar Arão e seus filhos à porta da tenda da congregação e os lavarás com água" (versículo 4). A lavagem da água tornava Arão simbolicamente aquilo que Cristo é intrinsecamente, isto é: santo. A Igreja é santa em virtude de estar ligada a Cristo na vida de ressurreição. Ele é a definição perfeita daquilo que ela é perante Deus. O ato cerimonial da lavagem da água representa a ação da palavra de Deus (veja-se Efésios 5:26).

"E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade" (João 17:19), disse o Senhor Jesus. Separou-Se para Deus no poder de uma perfeita obediência, orientando-Se em todas as coisas, como homem, pela Palavra, mediante o Espírito eterno, a fim de que todos aqueles que são d'Ele pudessem ser inteiramente separados pelo poder moral da verdade.

A Unção


"E tomarás o azeite da unção e o derramarás sobre a sua cabeça" (versículo 7). Nestas palavras temos o Espírito, mas é preciso notar que Arão foi ungido antes de o sangue ser derramado, porque nos é apresentado como figura de Cristo, que, em virtude daquilo que era em Sua Própria Pessoa, foi ungido com o Espírito Santo muito antes que fosse cumprida a obra da cruz. Em contrapartida, os filhos de Arão não foram ungidos senão depois de ser espargido o sangue, "degolarás o carneiro, e tomarás do seu sangue, e o porás sobre a ponta da orelha direita de Arão,e sobre a ponta da orelha direita de seus filhos, como também sobre o dedo polegar da sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito: e o resto do sangue espalharás sobre o altar ao redor" (¹). "Então, tomarás do sangue que estará sobre os altar e do azeite da unção e o espargirás sobre Arão e sobre as suas vestes e sobre seus filhos, e sobre os as vestes de seus filhos com ele" (versículos 20 e 21). No que diz respeito à Igreja, o sangue da cruz é o fundamento de tudo. Ela não podia ser ungida com o Espírito Santo até que a sua Cabeça ressuscitada tivesse subido ao céu e depositado sobre o trono da Majestade divina o relato do sacrifício que havia oferecido. "Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai e promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis" (Atos 2:32-33; comparem-se também João 7:39; Atos 19:1-6). Desde os dias de Abel que haviam sido regeneradas almas pelo Espírito Santo e experimentado a Sua influência, sobre as quais operou e a quem qualificou para o serviço; porém a Igreja não podia ser ungida com o Espírito Santo até que o Seu Senhor tivesse entrado vitorioso no céu e recebesse para ela a promessa do Pai. A verdade desta doutrina é ensinada, da forma mais direta e completa, em todo o Novo Testamento; e a sua integridade estreita é mantida, em figura, no símbolo que temos perante nós, pelo fato claro que, embora Arão fosse ungido antes de o sangue haver sido derramado (versículo 7), contudo os seus filhos não o foram, e não podiam ser ungidos senão depois (versículo 21).

(¹) O ouvido, as mãos e os pés são consagrados a Deus no poder da expiação efetuada e mediante a energia do Espírito Santo.

C. H. Mackintosh

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Fios de Ouro Entretecidos

(Comentário Êxodo 28 - AS VESTES DOS SACERDOTES)

Mas existe ainda um ponto relacionado com as vestes de Arão que requer a atenção do leitor: e este é a forma como o ouro é introduzido na sua confecção. Este assunto acha-se no capítulo 39; contudo a sua interpretação cabe muito bem aqui. "E estenderam as lâminas de ouro, e as cortaram em fios, para entretecer entre o pano azul, e entre a púrpura, e entre o carmesim, e entre o linho fino da obra mais esmerada" (capítulo 39:3). Já fizemos notar que o "azul, a púrpura, o carmesim e o linho fino torcido" apresentam as várias fazes da humanidade de Cristo, e que o ouro representa a Sua natureza divina. Os fios de ouro estavam curiosamente introduzidos nos demais materiais, de modo a estarem inseparavelmente unidos, e todavia perfeitamente distintas deles. A aplicação desta admirável imagem ao caráter do Senhor Jesus é cheia de interesse. Em diferentes cenas apresentadas nos relatos dos evangelhos, podemos discernir facilmente esta rara e formosa união da humanidade e divindade, e, ao mesmo tempo, a distinção misteriosa.

Por exemplo, considerai Cristo no mar da Galiléia, no meio da tempestade. Ele "estava dormindo sobre uma almofada" (Marcos 4:38). Que preciosa demonstração da sua humanidade! Porém, num momento eleva-Se da atitude de verdadeira humanidade à dignidade completa e majestade da divindade, e, como supremo Governador do universo, acalma a tempestade e impõe silêncio ao mar. Não se nota aqui nenhum esforço, nenhuma precipitação, nem preparação prévia para este momento. Com perfeita naturalidade, Ele passa da condição de humanidade positiva à esfera essencial da divindade. O repouso daquela não é mais natural que a atividade desta. Ele está perfeitamente no Seu elemento tanto numa como na outra.

Vede-O ainda no caso dos cobradores do tributo, segundo Mateus, 17. Como "Deus Altíssimo, possuidor dos céus e da terra", estende a Sua mão sobre os tesouros do oceano, e diz, "são meus"; e, havendo declarado que o oceano é Seu, "pois Ele o fez" (Sl 95:5), volta-Se e, numa demonstração de perfeita humanidade, associa-Se ao seu pobre servo, por meio dessas palavras tocantes, "toma-o e dá-o por mim e por ti". Palavras cheias de graça! Sobretudo quando as consideramos em ligação com o milagre tão expressivo da divindade d'Aquele que assim se ligava, em infinita condescendência, com um pobre verme.

Mas vede-O, mais uma vez, junto da sepultura de Lázaro (João 11). Comove-Se e chora, e essa emoção e essas lágrimas provêm das profundidades de uma humanidade perfeita — desse coração perfeitamente humano, que sentia, como nenhum outro coração podia sentir, o que era achar-se no meio da cena em que o pecado havia produzido tão terríveis frutos. Mas logo, como a Ressurreição e a Vida, como Aquele que segura em Suas mãos as chaves do inferno e da morte (Apocalipse 1:18) clama: "Lázaro, sai para fora"; e à voz de poder de Jesus a morte e a sepultura abrem as suas portas e deixam sair o seu cativo.

O espírito do leitor poderá facilmente recordar outras cenas dos evangelhos que ilustram esta união dos fios de ouro com o "azul, a púrpura, o carmesim e o linho fino torcido"; quer dizer, da união da deidade com a humanidade, na Pessoa misteriosa do Filho de Deus. Não há nada de novo neste pensamento, frequentemente assinalado por aqueles que têm estudado com algum cuidado as Escrituras do Velho Testamento.

Porém, é sempre proveitoso pensar no bendito Senhor Jesus como Aquele que é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. O Espírito Santo uniu estas duas naturezas por meio de uma obra delicada e apresenta-as ao espírito regenerado do crente para serem admiradas e desfrutadas por ele.

Consideremos, agora, antes de terminarmos esta parte do Livro do Êxodo, o capítulo 29.

C. H. Mackintosh

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

As Vestes dos Filhos de Arão

(Comentário Êxodo 28 - AS VESTES DOS SACERDOTES)

"Também farás túnicas aos filhos de Arão, e far-Ihes-ás cintos; também lhes farás tiaras, para glória e ornamento... faze-lhes também calções de linho, para cobrirem a carne nua... e estarão sobre Arão e sobre seus filhos, quando entrarem na tenda da congregação ou quando chegarem ao altar para ministrar no santuário, para que não levem iniquidade e morram." Aqui, Arão e seus filhos representam em figura Cristo e a Igreja — são a expressão das qualidades intrínsecas, essenciais, pessoais e ternas de Cristo; enquanto que as "túnicas" e "tiaras" dos filhos de Arão representam aquelas graças de que está revestida a Igreja, em virtude da sua ligação com a Cabeça da família sacerdotal.

Podemos ver assim em tudo que acaba de passar perante os nossos olhos, neste capítulo, o cuidado misericordioso com que Jeová fez provisão para as necessidades do Seu povo, permitindo que eles vissem aquele que estava prestes a atuar a seu favor e a representá-nos na Sua presença vestido como os vestidos que correspondiam diretamente à condição do povo, tal qual Ele os conhecia. Nada que o coração pudesse desejar ou que pudesse ter necessidade foi esquecido. Podiam contemplar Arão dos pés à cabeça e ver que tudo estava completo. Desde a mitra santa na cabeça de Arão às companhias de ouro e romãs que bordavam o seu manto, tudo era como devia estar, porque tudo estava conforme o modelo que fora mostrado no monte — tudo era segundo o cálculo que o Senhor fazia das necessidades do Seu povo e das Suas próprias exigências.

C. H. Mackintosh


terça-feira, 13 de agosto de 2019

O Manto do Éfode e a Lâmina de Ouro

(Comentário Êxodo 28 - AS VESTES DOS SACERDOTES)

O Manto do Éfode

"Também farás o manto do éfode todo de pano azul... e nas suas bordas farás romãs de pano azul, de púrpura e de carmesim, ao redor das suas bordas; e campainhas de ouro no meio delas, ao redor. Uma campainha de ouro e uma romã, outra campainha de ouro e outra romã haverá nas bordas do manto ao redor, e estará sobre Arão, quando ministrar, para que se ouça o seu sonido, quando entrar no santuário diante do Senhora quando sair, para que não morra" (versículos 31 a 35).

O manto azul do "éfode" exprime o caráter celestial do nosso Sumo Sacerdote, que penetrou nos céus, para além do alcance da visão humana; porém, pelo poder do Espírito Santo, há um testemunho da verdade de estar vivo na presença de Deus; e não apenas um testemunho, mas fruto também. "Uma campainha de ouro e uma romã, outra campainha de ouro e outra romã". Tal é a ordem cheia de beleza. O verdadeiro testemunho da grande verdade que Jesus vive sempre para interceder por nós estará sempre ligado com fertilidade no Seu serviço. Oh, se ao menos pudéssemos compreender mais profundamente estes mistérios preciosos e santos! (¹).

(¹) É desnecessário advertir que existe uma propriedade divina e significativa em todas as figuras que nos são apresentadas na Palavra de Deus. Assim, por exemplo, a "romã", quando aberta verifica-se que consiste de um número de sementes contidas num líquido vermelho. Certamente, isto fala por si. Que a espiritualidade, e não a imaginação, faça o seu juízo.

A Lâmina de Ouro 

"Também farás uma lâmina de ouro puro e nela gravarás, à maneira de gravuras de selos.- SANTIDADE AO SENHOR. E atá-la-ás comum cordão de fio azul, de maneira que esteja na mitra; sobre a frente da mitra estará. E estará sobre a testa de Arão, para que Arão leve a iniquidade das coisas santas, que os filhos de Israel santificarem em todas as ofertas de suas coisas santas; e estará continuamente na sua testa, para que tenham aceitação perante o Senhor" (versículos 36 a 38). Eis aqui uma verdade importante para a alma. A lâmina de ouro sobre a testa de Arão era figura da santidade do Senhor Jesus Cristo: "e estará CONTINUAMENTE NA SUA testa, para que TENHAM aceitação perante o Senhor". Que descanso para o coração por entre as flutuações da nossa experiência! O nosso Sumo Sacerdote está sempre na presença de Deus por nós. Somos representados por e aceites n'Ele. A Sua santidade pertence-nos. Quanto mais profundamente conhecermos a nossa própria vileza e fraquezas, tanto mais experimentaremos a verdade humilhante que em nós não habita bem algum, e mais fervorosamente bendiremos o Deus de toda a graça por esta verdade consoladora: "estará continuamente na sua testa, para que tenham aceitação perante o Senhor".

Se o leitor for um daqueles que são frequentemente tentados e sobrecarregados com dúvidas e temores, com altos e baixos no seu estado espiritual, com tendências a contemplar o seu pobre coração, frio, inconstante e rebelde—se for tentado com incerteza excessiva e falta de santidade —, deve apoiar-se de todo o coração sobre esta verdade preciosa: que o seu Sumo Sacerdote representa-o diante do trono de Deus. Deve fixar os seus olhos na lâmina de ouro e ler, na inscrição gravada nela, a medida da sua aceitação eterna perante Deus. Que o Espírito Santo o ajude a provar a doçura peculiar e o poder mantenedor desta doutrina divina e celestial!

C. H. Mackintosh

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