sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Sofrimento por Antecipação e as Diferenças entre os Sofrimentos de Cristo

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

Finalmente, temos de considerar os sofrimentos de Cristo por antecipação. Vemos a sombra escura da cruz projetar-se sobre o Seu caminho e produzir uma ordem aguda de sofrimento, que, no entanto, deve ser distinguido claramente do Seu sofrimento expiatório, assim como este se distingue de Seu sofrimento por amor da justiça e de Seu sofrimento por empatia. Tomemos como exemplo de prova uma ou duas passagens: "E, saindo, foi, como costumava, para o monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram. E, quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação. E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue que corriam até ao chão" (Lucas 22:39-44). "E, levando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e velai comigo... E; indo segunda vez, orou, dizendo: Meu pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade" (Mateus 26:37-42).

Da leitura desses versículos é evidente que havia algo em vista que o bendito Senhor nunca havia encontrado antes. Estava sendo cheio um "cálice" para Si do qual nunca tinha bebido. Se tivesse levado sobre Si o pecado durante toda a Sua vida, qual seria a razão dessa intensa agonia ante o pensamento de entrar em contato com o pecado e de ter de suportar a ira de Deus devido ao pecado? Que diferença haveria entre Cristo no Getsêmani e Cristo no Calvário se Ele tivesse levado sobre Si o pecado durante toda a Sua vida? Mas houve uma diferença essencial! Mas foi porque Ele não levou sobre Si o pecado durante toda a Sua vida. Qual é, logo, a diferença? No Getsêmani, Ele estava antecipando a cruz! No Calvário, Ele estava de fato suportando-a. No Getsêmani, "apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava"; no Calvário, foi desamparado por todos. Não houve ali ministério dos anjos. No Getsêmani, dirigiu-se a Deus como "Pai", gozando assim da plena comunhão desse inefável relacionamento; mas, no Calvário, clama: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Aqui Aquele que está levando sobre Si o pecado olha para cima e vê o trono da Justiça eterna envolto em nuvens carregadas, e o semblante da santidade inflexível desviado d'Ele, porque Ele estava sendo "feito pecado por nós".

O leitor não terá dificuldade em examinar este assunto por si mesmo. Poderá traçar pormenorizadamente as três espécies de sofrimento da vida de nosso bendito Senhor e fazer distinção entre eles e os sofrimentos da Sua morte — os Seus sofrimentos pelo pecado. Verá como, depois de os homens e Satanás terem feito o pior que podiam, restava ainda uma espécie do sofrimento que era perfeitamente único no seu gênero, a saber, às mãos de Deus, por causa do pecado — o sofrimento como substituto do pecador. Antes de chegar à cruz, Ele podia olhar para cima e alegrar-se na luz clara do rosto de Seu Pai. Nas horas mais sombrias sempre encontrara um auxílio certo nas alturas. O caminho que trilhara na terra era escabroso. Como poderia ser de outra maneira em um mundo onde tudo estava em oposição direta à Sua natureza santa e pura? Ele teve de suportar a "contradição dos pecadores contra Si mesmo". Teve de suportar a afronta dos que se opunham a Deus. O que não teve Ele de suportar? Foi mal compreendido, mal interpretado, injuriado, difamado, acusado de estar fora de Si e de ter demônio. Foi traído, negado, abandonado, escarnecido, esbofeteado, cuspido, coroado de espinhos, expulso, condenado e cravado entre dois malfeitores. Todas estas coisas Ele sofreu às mãos dos homens juntamente com os terrores indizíveis com que Satanás atormentou o Seu espírito; mas, deixai-me repetir mais uma vez e com ênfase: depois de os homens e Satanás terem esgotado o seu poder e inimizade, o nosso bendito Senhor e Salvador ainda tinha de suportar algo que fazia com que todo o resto parecesse nada comparado a isso; e isto era a ocultação da face de Deus — as três horas de trevas e terrível escuridão, durante as quais sofreu aquilo que ninguém senão Deus podia conhecer.

Ora, quando a Escritura fala de termos comunhão com os sofrimentos de Cristo, refere-se, simplesmente, aos Seus sofrimentos por amor da justiça — aos Seus sofrimentos nas mãos dos homens. Cristo sofreu pelo pecado, para que nós não tivéssemos de sofrer por ele. Sofreu a ira de Deus, para que nós não tivéssemos de sofrê-la. Este é o fundamento da nossa paz. Mas, no que diz respeito aos sofrimentos infligidos pelos homens, descobrimos sempre que, quanto mais fielmente seguirmos as pisadas de Cristo, mais sofreremos nesse sentido; porém, isto é um assunto de privilégio, uma mercê, uma honra (veja-se Filipenses 1:29-30). Andar nos passos de Cristo — desfrutar da Sua companhia, ter parte na Sua empatia, são privilégios dos mais elevados. Quão bom seria que todos nós os aproveitássemos melhor! Mas, infelizmente, contentamo-nos em passar sem eles — contentamo-nos, à semelhança de Pedro, em "seguir de longe" — de nos mantermos à distância do Cristo desprezado e sofredor. Tudo isto é, indubitavelmente, um grande privilégio. Tivéssemos nós apenas um pouco mais de comunhão com os Seus sofrimentos, e a nossa coroa resplandeceria com maior brilho na visão da nossa alma. Quando fugimos da comunhão com os sofrimentos de Cristo, privamo-nos da profunda alegria da Sua companhia, e também do poder moral da esperança da Sua glória futura.

C. H. Mackintosh

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O Sofrimento em Virtude da Empatia

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

O Senhor Jesus também sofreu em virtude da empatia — da compaixão —; e este gênero de sofrimento nos faz penetrar nos segredos profundos do Seu terno coração. A dor humana e a miséria sempre impressionaram esse coração de amor. Era impossível que esse perfeito coração humano não sentisse com a sua sensibilidade divina as misérias que o pecado havia transmitido à família humana. Embora livre, pessoalmente, tanto da causa como do efeito — embora pertencesse ao céu, e vivendo uma perfeita vida celestial na terra, contudo, desceu no poder de uma intensa compaixão para com os mais profundos recessos da dor humana. Assim, Ele sentiu a dor mais vivamente do que aqueles que eram vítimas dela, porquanto a Sua humanidade era perfeita. E, além disso, pôde contemplar tanto a dor como a sua causa, segundo a sua própria medida e caráter, na presença de Deus. Sentia como ninguém jamais pôde sentir. Os Seus sentimentos — as Suas afeições, a Sua sensibilidade e empatia — toda a Sua constituição moral e mental eram perfeitos; e, por isso, ninguém pode dizer quanto sofreu ao passar por um mundo como este. Viu lutar a família humana sob o peso grave da culpa e miséria; observou como toda a criação gemia debaixo do jugo; o clamor dos cativos chegava aos Seus ouvidos; as lágrimas das viúvas saltavam aos Seus olhos; as privações e a pobreza comoviam o Seu coração sensível; perante a doença e a morte, "moveu-se muito em espírito"; os Seus sofrimentos em virtude da empatia excediam todo o entendimento humano.

Transcrevo a seguir uma passagem ilustrativa do caráter do sofrimento a que nos referimos. "E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele, com a sua palavra, expulsou deles os espíritos e curou todos os que estavam enfermos, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: 'Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças'" (Mateus 8:16-17). Isto era verdadeira empatia — o poder do sentimento de solidariedade, que n'Ele era perfeito. Não havia n'Ele enfermidades ou fraquezas. Essas coisas que, por vezes, são chamadas de "fraquezas inocentes", no caso d'Ele, eram apenas provas de uma real, verdadeira e perfeita humanidade. Porém, por empatia — por um perfeito sentimento de solidariedade — "Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças" (Mateus 8:17). Só um homem absolutamente perfeito podia ter feito isto. Nós podemos simpatizar com os outros: mas só Jesus podia tomar sobre Si as enfermidades e fraquezas humanas.

Logo, houvesse Ele tomado todas essas dores em virtude do Seu nascimento ou das Suas relações com Israel e com a família humana, nós teríamos perdido toda a beleza e preciosidade da Sua voluntária empatia. Não podia haver lugar para ação voluntária se a necessidade absoluta lhe tivesse sido imposta. Mas, por outro lado, quando vemos a Sua inteira liberdade, tanto pessoal como relativamente, da miséria humana e daquilo que a produz, podemos compreender aquela perfeita graça e compaixão que O levou a "tomar sobre si as nossas enfermidades e levar as nossas doenças" no poder da verdadeira empatia. Existe, portanto, uma manifesta diferença entre os sofrimentos de Cristo por voluntária empatia para com as misérias humanas e os Seus sofrimentos como substituto do pecador. Os primeiros são manifestos ao longo de toda a Sua vida; os últimos se restringem à Sua morte.

C. H. Mackintosh

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Sofrimento por Amor da Justiça

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

O segundo ponto do nosso assunto é a forma como era preparada a oferta de manjares. Isto era feito, como lemos, pela ação do fogo. Era "cozida no forno", "cozida na caçoula" ou frita numa "sertã". O processo de cozedura sugere a ideia de sofrimento. Mas visto que a oferta de manjares é chamada de "cheiro suave" — um termo que nunca é aplicado à expiação do pecado ou expiação da culpa — é evidente que não há qualquer relação aqui com o sofrimento pelo pecado — não sugere o sofrimento sob a ira de Deus devido ao pecado, nem o sofrimento às mãos da Justiça infinita como o substituto do pecador. As duas ideias de "cheiro suave" e sofrimento pelo pecado são inteiramente incompatíveis entre si, segundo a ordem da dispensação levítica. Se introduzíssemos a ideia do sofrimento pelo pecado na oferta de manjares, destruiríamos totalmente o seu símbolo.

Ao contemplarmos a vida do Senhor Jesus, que, como já frisamos, é o principal assunto prefigurado na oferta de manjares, podemos notar três espécies distintas de sofrimento, a saber: sofrimento por amor da justiça, sofrimento em virtude da empatia, e o sofrimento por antecipação.

O Sofrimento por Amor da Justiça


Como Servo justo de Deus, Ele sofreu no meio de uma cena em que tudo Lhe era contrário; contudo isto era justamente o oposto do sofrimento pelo pecado. É da máxima importância distinguir entre estas duas espécies de sofrimento. Confundi-las conduzir-nos-ia a erros graves. Sofrer como um justo e manter uma atitude firme entre os homens a favor de Deus é uma coisa; sofrer no lugar do homem sob a mão de Deus é outra muito diferente. O Senhor Jesus sofreu por amor da justiça durante a Sua vida. Sofreu pelo pecado na Sua morte. Durante a Sua vida os homens e Satanás sempre se Lhe opuseram; e até mesmo na cruz empregaram todo o poder de que dispunham; mas depois de terem feito tudo que podiam fazer — depois de haverem chegado, no seu ódio mortal, ao limite da oposição humana e diabólica — restava ainda uma região afastada de sombras impenetráveis e horror que tinha de ser percorrida por Aquele que levou sobre Si o pecado, no cumprimento da Sua obra. Durante a Sua vida, Ele sempre andou na luz límpida do semblante divino! Porém, sobre a cruz de maldição, a sombra negra do pecado interveio e ocultou essa luz, provocando aquele brado misterioso: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Foi um momento absolutamente único nos anais da eternidade. Algumas vezes, durante a vida de Cristo na terra, o céu abriu-se para dar expressão à complacência divina n'Ele; mas na cruz Deus desamparou-O, porque Ele estava oferecendo a Sua alma em sacrifício pelo pecado. Se Cristo tivesse levado sobre Si o pecado durante toda a Sua vida, então qual seria a diferença entre a cruz e qualquer outro período? Por que razão não foi Ele desamparado por Deus durante toda a Sua vida? Qual foi a diferença entre Cristo na cruz e Cristo no monte da transfiguração? Foi desamparado de Deus nesse monte? Estaria Ele ali levando sobre Si o pecado? Estas interrogações são muito simples. Que deem respostas aqueles que alimentam a ideia de que Cristo viveu uma vida com o peso do pecado.

O fato simples é este: não houve nada, quer na humanidade de Cristo, quer na natureza das Suas relações, que pudesse, de modo algum, relacioná-Lo com o pecado ou com a ira ou com a morte. Ele "foi feito pecado" na cruz; e ali suportou a ira de Deus e entregou a Sua vida como uma totalmente suficiente expiação pelo pecado. Porém, nada disso encontra lugar na oferta de manjares. De fato, temos o processo de cozedura — a ação do fogo — mas isto não é a ira de Deus. A oferta de manjares não era uma oferta pelo pecado, mas uma oferta de "cheiro suave". Assim, a sua importância está definitivamente estabelecida; e, além disso, a sua inteligente interpretação deve sempre preservar, com santo zelo, a verdade preciosa da humanidade imaculada de Cristo e a verdadeira natureza das Suas relações. Dizer que Ele, por necessidade do Seu nascimento, foi alguém que levou sobre Si o pecado, ou colocá-Lo, por esse motivo, debaixo da maldição da lei e da ira de Deus, é contradizer toda a verdade de Deus no que diz respeito à encarnação — verdade anunciada pelo anjo e repetida diversas vezes pelo apóstolo inspirado. Além disso, tal afirmação destrói todo o caráter e objetivo da vida de Cristo e rouba à cruz a sua glória característica. Diminui o senso do que o pecado realmente é, e do que é a expiação. Numa palavra, remove a pedra principal do arco da revelação e põe tudo em irremediável ruína e confusão ao nosso redor.

C. H. Mackintosh


sábado, 25 de abril de 2020

O Mel

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

Porém, havia outro ingrediente tão claramente excluído da oferta de manjares quanto o "fermento", e este era o "mel". "Porque de nenhum fermento, nem de mel algum oferecereis oferta queimada ao Senhor" (versículo 11). Portanto, assim como o "fermento" é a expressão daquilo que é positiva e manifestamente mau na natureza, podemos considerar o "mel" como o símbolo expressivo do que é aparentemente doce e atrativo. Ambos são proibidos por Deus — ambos eram cuidadosamente excluídos da oferta de manjares —, ambos impróprios para o altar. Os homens podem aventurar-se, como Saul, a distinguir entre o que é "vil e desprezível" (1 Samuel 15:9) e o que não é: porém o juízo de Deus conta o polido Agague com o mais vil dos filhos de Amaleque. Não há dúvida de que existem boas qualidades morais no homem que devem ser consideradas pelo seu valor. "Achaste mel? come só o que te basta" (Provérbios 25:16). Mas recorde-se que isso não era admitido na oferta de manjares nem no seu Antítipo. Havia a plenitude do Espírito Santo; havia o fragrante odor do incenso; havia a virtude preservativa do "sal do concerto". Todas estas coisas acompanhavam a "flor de farinha" na Pessoa da verdadeira "oferta de manjares"; mas nenhum mel.

Que lição se encontra aqui para os nossos corações! Sim, que volume de sã instrução! O bendito Senhor Jesus sabia como dar à natureza e às suas relações o lugar próprio. Sabia a quantidade de "mel" que era conveniente; podia dizer a Sua mãe: "Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?" E, todavia, podia dizer também ao discípulo amado: "Eis aí tua mãe". Em outras palavras, nunca permitiu que as pretensões da natureza interferissem com a apresentação a Deus de todas as energias da perfeita humanidade de Cristo. Maria e outros também poderiam ter pensado que as suas relações humanas com o bendito Senhor lhes dava algum direito ou influência peculiar com base em motivos puramente naturais. "Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando de fora, mandaram-no chamar. E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos (segundo a carne) te procuram e estão lá fora" (Marcos 3:31-32). Qual foi a resposta d'Aquele que a oferta de manjares simbolizava em Sua perfeição? Abandonou Ele imediatamente a Sua missão a fim de atender ao chamado da natureza? De modo nenhum. Se o tivesse feito, teria sido a mesma coisa que misturar "mel" com a oferta de manjares, o que não podia ser permitido. O mel foi fielmente excluído nesta ocasião, assim como em todas as ocasiões em que os direitos de Deus deviam ser atendidos, e, em seu lugar, o poder do Espírito, o odor do "incenso" e as virtudes do "sal" foram abençoadamente exibidos. "E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porquanto qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe"* (Marcos 3:33-35).

{* Quão importante é vermos nesta magnífica passagem que fazer a vontade de Deus põe a alma num parentesco com Cristo do qual os Seus irmãos segundo a carne nada sabiam, pois isso não se baseia em laços naturais. Era tão verdadeiro a respeito daqueles irmãos como a respeito de outra qualquer pessoa, que "aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus". Maria não podia ter sido salva pelo simples fato de ser a mãe de Jesus. Ela precisou ter fé pessoal em Cristo como qualquer outro membro da família decaída de Adão. Precisou passar, por meio do novo nascimento, da velha criação para a nova. Foi por ter entesourado as palavras de Cristo em seu coração que esta bem-aventurada mulher foi salva. Não há dúvida que ela foi especialmente agraciada por ter sido escolhida como um vaso para tão santa missão, mas, como qualquer pecador, ela precisava de "alegrar-se em Deus, seu Salvador". Ela permanece no mesmo plano, está lavada no mesmo sangue, vestida com as mesmas vestes de justiça e entoará o mesmo cântico como todos os remidos de Deus.

Este simples fato dará força adicional e clareza a um ponto que foi já frisado, a saber: que a encarnação não significou Cristo tomar a nossa natureza em união consigo. Esta verdade deve ser escrupulosamente ponderada. É inteiramente apresentada em 2 Coríntios 5: "Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu, logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora; já não o conhecemos desse modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo" (versículos 14-17). }

Há poucas coisas que o servo de Cristo encontra serem mais difíceis do que harmonizar, com precisão espiritual, as pretensões das relações naturais, de forma a não as deixar interferir com os direitos do Mestre. No caso do nosso bendito Senhor, como bem sabemos, este ajustamento era divino. No nosso caso, acontece frequentemente que os deveres divinamente reconhecidos são abertamente negligenciados para dar lugar àquilo que imaginamos ser o serviço de Cristo. A doutrina de Deus é constantemente sacrificada a uma obra aparente do evangelho. Porquanto é bom lembrar que a verdadeira dedicação parte sempre de um ponto em volta do qual estão inteiramente asseguradas todas as reivindicações de Deus. Se estou em uma emprego que requer os meus serviços desde as dez às dezesseis horas todos os dias, não tenho o direito de sair para fazer visitas ou pregar durante aquelas horas. Se estou estabelecido em um negócio, sou forçado a manter a integridade desse negócio de uma maneira cristã. Não tenho o direito de correr para lá e para cá para pregar, enquanto o meu negócio fica abandonado e em desordem, trazendo vergonha sobre a santa doutrina de Deus. Um homem pode dizer: "Eu sinto-me chamado para pregar o evangelho e acho que o meu emprego ou negócio é um embaraço". Bem, se você for divinamente chamado e apto para a obra do evangelho e não pode conciliar as duas coisas, então renuncie ao seu emprego ou liquide o seu negócio de uma maneira cristã e parta em nome do Senhor. Mas, claro, enquanto eu continuar no meu emprego ou mantiver o meu negócio, o meu trabalho no evangelho deve partir de um ponto no qual os meus deveres nessa ocupação ou nesse negócio sejam inteiramente cumpridos. Isto é consagração. Tudo o mais é confusão, por mais bem intencionado que seja. Bendito seja Deus, temos um exemplo perfeito perante nós na vida do Senhor Jesus e ampla direção para o novo homem, na Palavra de Deus; de forma que não há razão para cometermos erros nas diversas responsabilidades para as quais formos chamados, na providência de Deus, a desempenhar, ou quanto aos vários deveres que o governo moral de Deus tem estabelecido em relação com tais responsabilidades.

C. H. Mackintosh

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Fermento

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

Havendo assim considerado os ingredientes que compunham a oferta de manjares, referiremos agora os que eram excluídos dela.

Destes, o primeiro era "o fermento". "Nenhuma oferta de manjares, que oferecerdes ao Senhor, se fará com fermento". Por todo o volume inspirado, sem uma única exceção, o fermento é o símbolo do mal. No capítulo 23 de Levítico, que examinaremos na devida altura, vemos que o fermento era permitido nos dois pães que eram oferecidos no dia de Pentecostes (versículo 17); porém, da oferta de manjares, o fermento era cuidadosamente excluído. Não devia haver nada que azedasse, nada que fizesse expandir a massa, nada expressivo do mal naquilo que simbolizava "o Homem Cristo Jesus". N'Ele não podia haver nada com o gosto de azedume da natureza, nada turvo, nada suscetível de fazer inchar. Tudo era puro, sólido e genuíno. A Sua palavra podia, por vezes, ferir; mas nunca era ácida. O Seu estilo nunca se elevou acima das ocasiões. O Seu comportamento mostrou sempre a profunda realidade de quem andava na presença imediata de Deus.

Nós que professamos o nome de Jesus, sabemos muito bem como, infelizmente, o fermento se mostra em todas as suas propriedades e efeitos. Só houve uma porção pura de fruto humano — uma única oferta de manjares perfeitamente sem levedura; e, bendito seja Deus, essa é nossa porção para nos alimentarmos dela no santuário da presença divina, em comunhão com Deus. Nenhum exercício espiritual pode realmente edificar melhor e dar maior refrigério à mente renovada do que firmarmo-nos sobre a perfeição incontaminável da humanidade de Cristo — para contemplar a vida e o mistério d'Aquele que foi absoluta e essencialmente sem levedura. Em toda a origem dos Seus pensamentos, afeições, desejos e imaginação não havia a mínima partícula de fermento. Ele foi o Homem perfeito, sem pecado e imaculado. E quanto mais, no poder do Espírito, nos aprofundarmos em tudo isto, tanto mais profunda será a nossa experiência da graça que levou este perfeito Senhor a tomar sobre Si todas as conseqüências dos pecados do Seu povo, como fez quando foi pendurado na cruz. Porém, este pensamento pertence inteiramente ao sacrifício de nosso bendito Senhor, simbolizado na expiação do pecado. Na oferta de manjares, o pecado não está em questão. Não se trata de uma figura da expiação do pecado por um substituto, mas de um Homem real, perfeito, imaculado, concebido e ungido pelo Espírito Santo, possuindo uma natureza sem fermento e vivendo uma vida isenta de levedura no mundo; exalando sempre perante Deus a fragrância da Sua excelência pessoal e mantendo entre os homens um comportamento caracterizado pela "graça temperada com sal".

C. H. Mackintosh

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O Sal

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

Agora só nos falta considerar um ingrediente que sempre fazia parte da oferta de manjares, a saber, "o sal". "E toda a oferta dos teus manjares salgarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de manjares o sal do concerto do teu Deus; em toda a tua oferta oferecerás sal". A expressão "o sal do concerto" revela o caráter permanente desse concerto (aliança). Deus Mesmo ordenou assim o seu emprego em todas as coisas para que nunca haja alteração — nenhuma influência poderá jamais corrompê-lo. Sob o ponto de vista espiritual e prático, é impossível dar demasiado apreço a um tal ingrediente. "A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal" (Colossenses 4:6). Em todas as conversas, o Homem perfeito mostrava sempre o poder deste princípio. As Suas palavras não eram simplesmente palavras de graça, mas palavras de penetrante poder — palavras divinamente adaptadas para preservar de toda a mancha e influência corrupta. Nunca pronunciou uma palavra que não fosse perfumada com "incenso" e "temperada com sal". O primeiro era de todo agradável a Deus; o último, o mais proveitoso para o homem.

Às vezes, infelizmente, o coração corrompido do homem e o seu paladar viciado não podiam tolerar a pungência da oferta de manjares salgada por determinação divina. Observemos, por exemplo, a cena na sinagoga de Nazaré (Lucas 4:16-29). O povo podia dar-lhe testemunho e "todos... se maravilham das palavras de graça que saíam da sua boca"; mas logo que passou a temperar essas palavras com sal, que tão necessário era a fim de preservá-los da influência corruptível do seu orgulho nacional, eles de boa vontade O teriam precipitado do cume do monte em que a sua cidade estava edificada.

Assim também em Lucas 14, logo que as Suas palavras de "graça" atraíram "grandes multidões", Ele deitou-lhes imediatamente o "sal" ao anunciar, em palavras de santa fidelidade, os resultados seguros de O seguirem. "Vinde, que já tudo está preparado". Aqui estava a "graça". Mas logo em seguida diz: "Qualquer de vós que não renunciar a tudo quanto tem não poder ser meu discípulo". Aqui estava o "sal". A graça é atrativa; mas "o sal é bom". Um discurso agradável pode ser popular; mas um discurso temperado com sal nunca o será. A multidão pode, em certas ocasiões e sob determinadas circunstâncias, seguir por um pouco de tempo o puro evangelho da graça de Deus; mas logo que o "sal" de uma aplicação fervorosa e fiel é introduzido, o auditório é reduzido ao número daqueles que foram trazidos sob o poder da Palavra.

C. H. Mackintosh

domingo, 19 de abril de 2020

O Incenso

(Comentário Levítico 2 A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA HUMANIDADE)

Outro ingrediente da oferta de manjares, que requer a nossa atenção, é "o incenso". Como tivemos ocasião de verificar, a oferta de manjares era à base de "flor de farinha". O "azeite" e "o incenso" eram os dois principais ingredientes acrescentados; e, na realidade, a relação entre esses dois é muito instrutiva. O "azeite" simboliza o poder do ministério de Cristo; "o incenso" simboliza o seu objetivo. O primeiro ensina-nos que Ele fez tudo pelo Espírito de Deus; o último que fez tudo para a glória de Deus. O incenso representa aquilo que na vida de Cristo era exclusivamente para Deus. Isto é evidente pelo segundo versículo: "E a trará (a oferta de manjares) aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu azeite com todo o seu incenso; e o sacerdote queimará este memorial sobre o altar; oferta queimada é; de cheiro suave ao Senhor". Assim era a verdadeira oferta de manjares — o Homem Cristo Jesus. Em Sua vida bendita havia o que era exclusivamente para Deus. Cada pensamento, cada palavra, cada olhar, cada ato Seu, exalava um perfume que subia diretamente para Deus. E assim como o símbolo era "o fogo do altar" que fazia sair o cheiro suave do incenso, assim no Antítipo quanto mais "provado" era, em todas as cenas e circunstâncias da Sua bendita vida, tanto mais manifesto se tornava que, na Sua humanidade, não havia nada que não pudesse subir, como cheiro suave, ao trono de Deus. Se no holocausto vemos Cristo "oferecendo-se a si mesmo imaculado a Deus", na oferta de manjares vemo-Lo apresentar a Deus toda a excelência intrínseca da Sua natureza humana e perfeita atividade. Um homem perfeito, vazio de Si, obediente, na terra, fazendo a vontade de Deus, agindo pela autoridade da Palavra e mediante o poder do Espírito, exalava um perfume suave que só podia ter aceitação divina. O fato de "todo o seu incenso" ser consumido sobre o altar revela a sua importância da maneira mais simples possível.

C. H. Mackintosh

Postagens populares