terça-feira, 21 de julho de 2020

A Transgressão Contra os Homens

(Comentário Levítico 5:14-27: OS SACRIFÍCIOS PELA CULPA)

A mesma lei referente a "um quinto" aplica-se ao caso de transgressão contra um homem, pois que lemos: "Quando alguma pessoa pecar e transgredir contra o Senhor* e negar ao seu próximo o que se lhe deu em guarda, ou o que se depôs na sua mão, ou o roubo ou o que retém violentamente ao seu próximo; ou que achou o perdido, e o negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o homem costuma pecar, será, pois, que, porquanto pecou e ficou culpada, restituirá o roubo que roubou, ou o retido que retém violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá no seu cabedal e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem é o dará no dia de sua expiação" (capítulo 6:2-5).

{* Existe um princípio precioso ligado à expressão "contra o Senhor". Embora o caso em questão fosse de dano causado a um próximo, o Senhor vê-o como uma transgressão contra Si. Tudo deve ser encarado em relação com o Senhor. Pouco importa a quem concerne diretamente, Jeová deve ter o primeiro lugar. Assim, quando a consciência de Davi foi traspassada pela frecha da convicção, a respeito do seu procedimento para com Urias, ele exclama, "Pequei contra o Senhor" (2 Samuel 12:13). Este princípio não prejudica em nada os direitos do homem ofendido.}

Assim como Deus, também o homem ganha com a cruz do Calvário. Contemplando essa cruz, o crente pode dizer: "Pouco importa o muito que tenho sido prejudicado, as faltas que têm sido cometidas contra mim, até que ponto tenho sido enganado e o mal que me tem sido feito, ganho muito mais com a cruz. Não só me foi restituído tudo que havia perdido, mas muito mais".

Assim, quer pensemos no ofendido ou no ofensor, em cada caso somos igualmente surpreendidos com os triunfos gloriosos da redenção e os resultados práticos e poderosos daquele evangelho que enche a alma com a ditosa certeza de que todas as transgressões "são perdoadas" e que a raiz de onde brotaram essas transgressões foi julgada. "O evangelho da glória de Deus bendito" é unicamente o que pode enviar um homem ao meio de uma cena que foi testemunha dos seus pecados, suas transgressões e de suas injustiças — pode fazê-lo voltar para junto daqueles que, de qualquer modo, tenham sido vítimas dos seus maus atos, investido da graça, não apenas para reparar o mal feito, mas, muito mais, para permitir que a onda prática de benevolência inunde todos os seus caminhos; sim, para amar os seus inimigos, fazer bem aos que o odeiam, e orar por aqueles que o maldizem e perseguem. Tal é a graça preciosa de Deus, que atua em relação com o nosso grande Sacrifício da Expiação da Culpa e tais são os seus ricos e preciosos frutos!

Que resposta vitoriosa a dar ao questionador que poderia perguntar: "Permaneceremos no pecado para que a graça abunde?" A graça não somente corta o pecado pela raiz, como passa o pecador de um estado de maldição para um de bênção; de uma praga moral para uma conduta de misericórdia divina; de um emissário de Satanás para um mensageiro de Deus; de um filho das trevas para um filho da luz; de um caçador de prazeres para um ser que renuncia a si próprio e ama a Deus; de um escravo abjeto dos prazeres para um servo consagrado de Deus; de um escravo da vil cobiça para um servo dedicado de Cristo, de um avarento insensível para um benéfico provedor das necessidades dos seus semelhantes. Desprezemos, pois, as expressões jocosas frequentemente repetidas: "Não temos nada que fazer? Que maneira maravilhosamente fácil de se ser salvo, hein?". Que todos os que empregam uma tal linguagem considerem aquele que furtava transformado num abnegado doador e fiquem para sempre silenciosos (veja-se Ef 4:28). Não sabem o que quer dizer o vocábulo graça. Nunca sentiram as suas influências elevadas e santificadoras. Esquecem que, ao passo que o sangue do sacrifício da culpa do pecado purifica a consciência, a lei desse sacrifício manda o culpado àquele a quem tem prejudicado com o principal e o quinto em suas mãos. Nobre testemunho este, tanto para a graça como para a justiça do Deus de Israel! Bela manifestação dos resultados desse maravilhoso plano de redenção pelo qual o prejudicado se torna beneficiário! Se a consciência ficou tranquila pelo sangue da cruz quanto às reivindicações de Deus, a conduta deve também estar de acordo com a santidade da cruz quanto às reivindicações da justiça prática. Estas coisas nunca devem ser separadas. Deus juntou-as, e o homem não deve separá-las. Esta santa união nunca será dissolvida por qualquer coração governado pela pura moral do evangelho. Infelizmente, é fácil fazer profissão dos princípios da graça, enquanto que a sua prática e o seu poder são completamente renegados. É fácil falar do descanso do sangue do Sacrifício da Culpa do pecado enquanto "o principal" e "o quinto" são retidos. Mas isto é vão, e pior do que vão. "Qualquer que não pratica a justiça... não é de Deus" (1 Jo 3:10).

Nada pode desonrar tanto a pura graça do evangelho quanto a suposição de que um homem pode pertencer a Deus enquanto que a sua conduta e caráter não mostram os traços formosos da santidade prática. Todas as suas obras são conhecidas de Deus (Atos 15:18), sem dúvida, porém deu-nos na Sua Santa Palavra as provas pelas quais podemos discernir aqueles que Lhe pertencem. "O fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade" (2 Timóteo 2:19). Não temos o direito de imaginar que um malfeitor pertence a Deus. Os santos instintos da natureza divina revoltam-se ante tal suposição. As pessoas têm, por vezes, grande dificuldade em explicar certas obras más por parte daqueles que não podem deixar de considerar como cristãos. A Palavra de Deus resolve o assunto de uma forma tão clara e com tal autoridade que não deixa lugar para tais dificuldades. "Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo. Qualquer que não pratica a justiça e não ama a seu irmão não é de Deus" (1 João 3:10). É bom recordar isto nestes dias de relaxamento e condescendência. Existe muita profissão superficial e sem influência contra a qual o cristão verdadeiro é convidado a resistir a dar testemunho severo — um testemunho resultante da contínua exibição dos "frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus" (Fp 1:11). É deplorável ver como tantos seguem o caminho batido — o caminho largo da profissão religiosa sem contudo manifestarem sinais de amor ou de santidade na sua conduta. Leitor crente, sejamos fiéis. Censuremos, por meio de uma vida de renúncia e genuína benevolência, o egoísmo e inatividade culpável de uma profissão cristã e contudo mundana. Que o Senhor conceda a todo o Seu verdadeiro povo graça abundante para estas coisas!

C. H. Mackintosh

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A Transgressão contra Deus por Ignorância -- Parte 2

(Comentário Levítico 5:14-27: OS SACRIFÍCIOS PELA CULPA)

"Assim, restituirá o que ele tirou das coisas sagradas, e ainda de mais acrescentará o seu quinto, e o dará ao sacerdote; assim o sacerdote, com o carneiro da expiação, fará expiação por ela e ser-lhe-á perdoado o pecado" (versículo 16). No acréscimo de um quinto, como é estipulado aqui, temos um aspecto do verdadeiro sacrifício da culpa, que é de se recear que seja pouco apreciada em geral. Quando pensamos em todo o mal e todas as ofensas que temos cometido contra o Senhor, e, mais, quando recordamos quão prejudicado Deus tem sido nos Seus direitos neste mundo iníquo, com que interesse devemos contemplar a obra da cruz como aquilo em que Deus reaveu não só o que havia perdido, como é também por esse meio beneficiário. Ganhou mais pela redenção do que perdeu pela queda. Recolhe uma mais rica seara de glória, honra e louvor, nos campos da redenção do que jamais poderia ter recolhido nos campos da criação. "Os filhos de Deus" podem entoar um cântico de louvor muito mais magnífico em redor do sepulcro vazio de Jesus do que jamais puderam entoar em vista da obra do Criador. O mal não só foi expiado perfeitamente como também ganhou-se uma vantagem eterna por meio da obra da cruz. Esta é uma verdade admirável. Deus tira proveito com a obra do Calvário. Quem poderia ter imaginado isto? Quando contemplamos o homem e a criação, da qual Ele era Senhor, jazendo em ruínas aos pés do inimigo, como poderíamos conceber que, do meio dessas ruínas, Deus pudesse recolher despojos mais ricos e nobres do que quaisquer que este mundo pudesse oferecer antes da queda? Bendito seja o nome de Jesus por tudo isto! É a Ele que tudo devemos. É por meio da Sua preciosa cruz que pode anunciar-se uma verdade divina tão maravilhosa. Seguramente, essa cruz encerra uma sabedoria misteriosa, "a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória" (1 Coríntios 2:8). Não é de admirar portanto que em volta dessa cruz e ao redor d'Aquele que foi crucificado nela estivessem sempre entrelaçados os afetos de patriarcas, profetas, apóstolos, mártires e santos. Não é de admirar que o Espírito Santo haja pronunciado esse solene e justo decreto: "Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema; maranata" (1 Coríntios 16:22). O céu e a terra farão eco com um grande e eterno amém a este anátema. Não é de admirar que fosse propósito estável e imutável da mente divina que "ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai" (Fp 2:10-11).

C. H. Mackintosh

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A Transgressão contra Deus por Ignorância -- Parte 1

(Comentário Levítico 5:14-27: OS SACRIFÍCIOS PELA CULPA)

Estes versículos contêm a doutrina da Expiação da Culpa, da qual havia duas classes distintas, isto é, transgressões contra Deus e transgressões contra o homem. "Quando alguma pessoa cometer uma transgressão e pecar por ignorância nas coisas sagradas do Senhor, então trará ao Senhor por expiação um carneiro sem mancha do rebanho, conforme à tua estimação em ciclos de prata, segundo o ciclo do santuário, para expiação da culpa". Temos aqui um caso em que foi cometida uma falta positiva nas coisas santas pertencentes ao Senhor; e, embora isto fosse feito "por ignorância", não podia contudo passar em silêncio. Deus pode perdoar toda a espécie de pecado, mas não pode deixar passar um simples jota ou til. A sua graça é perfeita, e pode perdoar tudo. A Sua santidade é perfeita e portanto não pode deixar passar nada. Não pode sancionar a iniquidade, mas pode apagá-la, e isso também segundo a perfeição da Sua graça e de acordo com as exigências justas da Sua santidade.

É um erro muito grave supor-se que contanto que um homem siga os ditames da sua consciência tem razão em tudo e está seguro. A paz que repousa sobre um tal fundamento será eternamente destruída quando a luz do tribunal de Cristo brilhar sobre a consciência. Deus nunca poderia baixar as Suas reivindicações a um tal nível. As balanças do santuário são afinadas por uma escala muito diferente daquela que pode proporcionar a consciência mais sensível. Já tivemos ocasião de insistir sobre este ponto nos comentários sobre a expiação do pecado. Mas nunca é demais insistir sobre este ponto. Duas coisas principais se acham envolvidas nele. A primeira é uma justa percepção do que é realmente a santidade de Deus: a segunda é a compreensão clara do fundamento da paz do crente na presença divina.

Quer se trate do meu estado ou da minha conduta, da minha natureza ou dos meus atos, só Deus pode ser o Juiz daquilo que Lhe convém e daquilo que é próprio à Sua santa presença. Pode a ignorância humana apresentar uma alegação quando se trata dos requisitos divinos? Deus nos guarde de tal pensamento! Cometeu-se uma transgressão "nas coisas sagradas do Senhor" sem que a consciência do homem haja tido conhecimento disso. E então? Nada mais há a fazer? Os requisitos de Deus podem ser satisfeitos assim tão facilmente? Decerto que não. Isto seria subversivo de tudo que diz respeito ao parentesco divino. Os justos são convidados a dar graças em memória da santidade de Deus (Salmos 97:12). Como podem eles fazer isto? Porque a sua paz foi conseguida sobre o fundamento pleno da justificação e do estabelecimento perfeito dessa santidade. Por isso, quanto mais elevado for o seu sentimento do que é essa santidade, tanto mais profunda e segura deve ser a sua paz. Eis uma verdade das mais preciosas. O homem não regenerado nunca poderá regozijar-se com a santidade divina. O seu intento será sempre rebaixar essa santidade, se não puder ignorá-la completamente. Um tal homem consolar-se-á com o pensamento de que Deus é bom, que Deus é misericordioso e que Deus é clemente, mas nunca se regozijará com o pensamento de que Deus é santo. Os seus pensamentos a respeito da bondade de Deus, da Sua graça e misericórdia são profanos. Faria de boa vontade desses atributos benditos uma desculpa para continuar no pecado.

Pelo contrário, o homem regenerado exulta com a santidade de Deus. Vê a sua plena expressão na cruz do Senhor Jesus Cristo. Essa santidade é a mesma que lançou o fundamento da sua paz; e, não somente isto, ele próprio foi feito seu participante e deleita-se nela, aborrecendo o pecado com verdadeiro ódio. Os instintos da natureza divina repugnam-no e aspira à santidade. Seria impossível gozar de verdadeira paz e liberdade de coração se não soubéssemos que todos os requisitos ligados com "as coisas sagradas do Senhor" foram perfeitamente cumpridos pelo nosso divino Sacrifício da Culpa do pecado. Levantar-se-ia sempre ao coração o sentimento penoso de que esses requisitos haviam sido desprezados devido às nossas múltiplas faltas e ofensas. O nosso melhor serviço, os nossos momentos mais santos, os nossos exercícios mais piedosos, podem muito bem representar alguma coisa parecida com transgressão "nas coisas sagradas do Senhor" — "qualquer coisa que não deveria ter sido feita". Quantas vezes não são as nossas horas de serviço público e devoção particular perturbadas e manchadas por distração! Por isso necessitamos da certeza de que todas as nossas transgressões foram divinamente apagadas pelo precioso sangue de Cristo. Desta forma encontramos no bendito Senhor Jesus Aquele que desceu até à medida das nossas necessidades como pecadores por natureza e transgressores por atos. Encontramos n'Ele a resposta perfeita a todos os anseios de uma consciência culpada e a todas as exigências da infinita santidade a respeito de todos os nossos pecados e todas as nossas transgressões; de modo que o crente pode estar com uma consciência tranquila e coração libertado na luz plena daquela santidade que é demasiado pura para contemplar a iniquidade ou ver o pecado.

C. H. Mackintosh

sábado, 11 de julho de 2020

Saiamos a Ele fora do Arraial -- Parte 2

(Comentário Levítico 4 - 5:13OS SACRIFÍCIOS QUE NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE)

Todavia, o leitor precisa recordar que o convite impressionante de "sair" implica muito mais do que o distanciamento que deveríamos buscar dos absurdos crassos de uma superstição ignorante ou das intenções de uma astuta cobiça. Há muitos que podem falar poderosa e eloquentemente contra tais coisas, e que estão muito longe, na verdade, de obedecer a essa convocação apostólica de "sair". Quando os homens levantam um "arraial" e se reúnem em redor de um pendão embelezado com qualquer dogma importante de verdade ou alguma instituição valiosa — quando podem recorrer a um credo ortodoxo, a um plano de doutrina avançado e iluminado ou a um esplêndido ritual capaz de satisfazer as mais ardentes aspirações da natureza devocional do homem — quando alguma ou todas estas coisas existem é necessária muita inteligência espiritual para se discernir a força real e adequada aplicação da palavra "Saiamos", e muita energia espiritual e decisão para se atuar em conformidade com ela. Contudo, deve-se atuar em conformidade com ela, porque é absolutamente certo que a atmosfera de um arraial, seja qual for o seu fundamento ou padrão, é destrutivo para a comunhão pessoal com um Cristo rejeitado; e nenhum tipo de "vantagem religiosa" poderá jamais substituir a perda dessa comunhão. É a tendência dos nossos corações caírem em formas frias e estereotipadas. Sempre foi assim na igreja professa. Estas formas podem até ter sido produzidas por verdadeiro poder. Podem até ter resultado de graça positiva do Espírito de Deus. Porém, há a tentação de fixar formas logo que esse espírito e poder deixam de existir. Isto é, em princípio, estabelecer um arraial. O sistema judaico podia vangloriar-se da sua origem divina. Um judeu podia apontar vitoriosamente para o templo, com o seu sistema esplêndido de culto, o seu sacerdócio, os seus sacrifícios, todo o seu equipamento, e mostrar que tudo havia sido dado pelo Deus de Israel. Podia citar o capítulo e o versículo, como costumamos dizer, que dava base a tudo o que se relacionava com o sistema a que ele estava ligado. Onde está o sistema, antigo, medieval ou moderno, que possa apresentar tão elevadas e poderosas pretensões ou descer até ao coração com tal peso de autoridade? E, mesmo assim, a ordem era "SAIAMOS".

Este assunto é profundamente solene, e diz-nos respeito a todos, porque somos todos propensos e esquivarmo-nos da comunhão com Cristo para cairmos em uma rotina morta. Daí o poder prático das palavras, "saiamos, pois a Ele". Não é SAIR de um sistema para outro — de uma ordem de opiniões para outra ou de um grupo de pessoas para outro. Não! Mas sair de tudo que merece a designação de um arraial para Aquele que "padeceu fora do arraial". O Senhor Jesus está tão fora da porta agora como quando padeceu ali há quase vinte séculos. O que foi que o pôs fora da porta? "O mundo religioso" daquele tempo: e o mundo religioso daquele tempo é, em espírito e princípio, o mesmo mundo religioso de nossos tempos. O mundo é ainda o mundo. "Não há nada novo debaixo do sol". Cristo e o mundo não são um. O mundo cobriu-se com a capa do cristianismo; porém fê-lo para que o seu ódio contra Cristo possa desenvolver-se em formas implacáveis. Não nos enganemos. Se andarmos com um Cristo rejeitado, teremos de ser um povo rejeitado. Se o nosso Mestre "padeceu fora do arraial", não podemos esperar reinar dentro do arraial. Se andarmos nas Suas pisadas, aonde nos conduzirão elas? Seguramente que não serão às altas posições deste mundo sem Deus e sem Cristo.

"O caminho dEle, não percorrido por sorrisos terrenos,
Levou apenas à cruz. "

Ele é um Cristo desprezado, um Cristo rejeitado, um Cristo fora do arraial. Oh, então, querido cristão, saiamos, pois, a Ele, levando o Seu vitupério. Não nos deixemos envolver com a luz do favor deste mundo, visto que crucificou e ainda aborrece com ódio implacável o Ente amado a quem devemos tudo quanto possuímos no presente e na eternidade, e que nos ama com um amor que as muitas águas não poderiam apagar. Não aceitemos, quer direta ou indiretamente, aquilo que se cobre com o Seu nome sagrado, mas que, na realidade, odeia os Seus caminhos, odeia a Sua verdade e odeia a simples menção do Seu advento. Sejamos fiéis ao nosso Senhor ausente. Vivamos para Aquele que morreu por nós. Enquanto as nossas consciências repousam sobre o Seu sangue, que os afetos dos nossos corações se enlacem em redor da Sua pessoa; de sorte que a nossa separação "deste presente século mau" não seja meramente um coro de princípios frios, mas uma separação afetuosa porque o objeto das nossas afeições não se encontra aqui. Que o Senhor nos liberte da influência desse egoísmo consagrado e prudente, tão comum no tempo presente, que não pode viver sem religião, mas que é inimigo da cruz de Cristo. O que nós necessitamos, para podermos resistir com êxito a essa forma terrível de mal, não são opiniões peculiares, ou princípios especiais ou teorias singulares ou uma fria exatidão intelectual. Necessitamos de uma profunda devoção pela pessoa do Filho de Deus; uma inteira consagração de nós próprios, de alma, corpo e espírito ao Seu serviço; e de um ardente desejo pelo Seu glorioso advento. Estas são, prezado leitor, as necessidades especiais dos tempos em que vivemos. Queira, portanto, unir-se, do profundo do seu coração, ao grito: "Aviva, ó Senhor, a tua obra"! "Completa o número dos teus eleitos"! "Apressa o teu reino", "Vem, Senhor Jesus"!

C. H. Mackintosh

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Saiamos a Ele fora do Arraial -- Parte 1

(Comentário Levítico 4 - 5:13OS SACRIFÍCIOS QUE NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE)

Consideremos agora o que era feito da "carne" ou "corpo" do sacrifício, no qual, como já foi acentuado, encontramos o verdadeiro fundamento do discipulado. "Todo aquele novilho, levará fora do arraial, a um lugar limpo, onde se lança a cinza, e o queimará com fogo" (Levítico 4:12). Este ato deve ser encarado sob um duplo aspecto: primeiro, como expressão do lugar que o Senhor Jesus tomou por nós, levando sobre Si o pecado; depois, como expressão do lugar para onde foi lançado por um mundo que O havia rejeitado. É para este último ponto que pretendo chamar a atenção do leitor.

O uso que o apóstolo faz em Hebreus 13:13 do fato de Cristo haver padecido "fora da porta" é profundamente prático. "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério (rejeição)". Se os sofrimentos de Cristo nos têm assegurado uma entrada no céu, o lugar onde Ele sofreu representa a nossa rejeição pela terra. A sua morte tem-nos proporcionado uma cidade nas alturas; o lugar onde Ele morreu priva-nos de uma cidade aqui. Ele "padeceu fora da porta", e, fazendo-o, pôs de lado Jerusalém como centro das operações divinas. Não existe aquilo que poderíamos chamar de um lugar consagrado na Terra. Cristo tomou o Seu lugar, como o Sofredor, fora dos limites da religião deste mundo — da sua política e tudo que lhe pertence. O mundo aborreceu-O e lançou-O fora. Portanto, a Escritura diz "Saiamos". Este é o lema quanto a tudo que os homens levantem como "arraial" não obstante o que esse arraial possa ser. Se os homens levantarem uma "cidade santa" devemos procurar um Cristo rejeitado "fora da porta". Se os homens levantarem um arraial religioso, qualquer que seja o nome que se lhe queira dar, "saiamos" dele a fim de encontrarmos o Cristo rejeitado. Não é que a cega superstição não possa escavar as ruínas de Jerusalém para nelas encontrar as relíquias de Cristo. Certamente que o fará e já o tem feito. Fingirá ter encontrado e honrado o sítio da Sua cruz e do Seu sepulcro. A cobiça da natureza, aproveitando-se da superstição da natureza, também tem levado a efeito durante séculos um mercado lucrativo, com o astuto pretexto de prestar honra aos chamados lugares sagrados da antiguidade. Porém um simples raio de luz da lâmpada da Revelação celestial é suficiente para nos autorizar a dizer que é preciso sair de todas estas coisas a fim de encontrar e desfrutar da comunhão com um Cristo rejeitado.

C. H. Mackintosh

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Nossa Posição é Resultado da Obra na Cruz

(Comentário Levítico 4 - 5:13OS SACRIFÍCIOS QUE NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE)

E agora, antes de deixar este ponto fundamental que nos tem ocupado, desejo fazer um apelo sincero e solene ao coração e à consciência do leitor. Permita que lhe pergunte, prezado amigo: você já foi levado a descansar sobre este santo e feliz fundamento? Você já sabe que a questão do seu pecado foi para sempre resolvida? Você já impôs, mediante a fé, a sua mão sobre a cabeça da vítima do sacrifício de expiação? Você já viu o sangue expiatório de Jesus tirar toda a sua culpa e lançá-la às águas do esquecimento de Deus? A justiça Divina tem ainda alguma coisa contra você? Você está livre do pavor inexprimível de uma consciência culpada? Não descanse satisfeito, rogo-lhe, antes que você possa dar uma resposta feliz a estas interrogações. Fique certo de que é privilégio ditoso até do mais fraco crente em Cristo regozijar-se na plena e eterna remissão dos seus pecados, com base numa expiação efetuada. Por isso, se alguém ensina outra coisa, rebaixa o sacrifício de Cristo ao nível de "bodes e bezerros". Se não podemos saber que os nossos pecados estão perdoados, então onde estão as boas novas do evangelho? Não estaria um cristão em melhores circunstâncias, quanto ao sacrifício de expiação, do que um judeu? Este tinha o privilégio de saber que os seus interesses estavam assegurados por um ano por meio do sangue de um sacrifício anual. Poderia aquele não ter nenhuma certeza? Decerto que pode. Pois bem, se há alguma certeza, tem de ser eterna, visto que descansa sobre um sacrifício eterno.

Isto, e isto somente, é o fundamento da adoração. A segurança perfeita do perdão do pecado produz não um espírito de confiança própria, mas um espírito de louvor, gratidão e adoração. Produz, não um espírito de complacência própria, mas de gratidão pela complacência de Cristo, que, bendito seja Deus, é o espírito que há de caracterizar os remidos por toda a eternidade. Não induz alguém a fazer pouco caso do pecado, mas a pensar na graça que o perdoou perfeitamente, do sangue que cancelou esse pecado inteiramente. É impossível que alguém possa contemplar a cruz — que alguém possa ver o lugar que Cristo tomou e meditar em Seus sofrimentos —, e ponderar sobre essas três horas terríveis de trevas e, ao mesmo tempo, olhar o pecado como coisa sem importância. Quando todas estas coisas são compreendidas, no poder do Espírito Santo, devem seguir-se dois resultados, a saber, horror ao pecado, sob todas as suas formas, e amor verdadeiro por Cristo, o Seu povo e a Sua causa.

C. H. Mackintosh

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cristo: O Antítipo

(Comentário Levítico 4 - 5:13OS SACRIFÍCIOS QUE NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE)

O pecado foi removido pelo sangue da vítima, e Jeová disse estas palavras: "Ser-lhe-á perdoado". A vítima havia morrido em lugar dele; e ele vivia em lugar da vítima. Tal era o tipo (a figura, a sombra). E, quanto ao Antítipo (a Pessoa real representada pela figura), quando o olhar da fé descansa sobre Cristo como o sacrifício de expiação, vê-O como Aquele que, havendo tomado uma perfeita vida humana, deu essa vida na cruz, porque o pecado foi ali então ligado por imputação a essa vida. Mas vê-O também como Aquele que, tendo em Si mesmo o poder da vida divina e eterna, saiu por meio dele do sepulcro e agora comunica esta Sua vida de ressurreição — divina e eterna — a todos os que creem no Seu nome. O pecado se foi, porque a vida a que foi ligado se foi. E agora no lugar da vida a que fora ligado o pecado, todos os verdadeiros crentes possuem a vida a que está unida a Justiça. A questão do pecado nunca poderá ser levantada quanto à vida ressuscitada e vitoriosa de Cristo; e é esta a vida que os crentes possuem. Não há outra vida. Tudo fora dela é morte, porque fora dela tudo está sob o poder do pecado. "Aquele que tem o Filho tem a vida"; e aquele que tem a vida tem a justiça também. As duas coisas são inseparáveis, porque Cristo é tanto uma como a outra. Se o juízo e morte de Cristo, na cruz, foram realidades, então a vida e a justiça do crente são realidades. Se a imputação do pecado foi uma realidade para Cristo, a imputação da justiça ao crente é uma realidade. São tão reais uma como a outra, porque se não fosse assim Cristo teria morrido em vão. O verdadeiro e incontestável fundamento de paz é este: que as exigências da natureza de Deus, quanto ao pecado, foram perfeitamente satisfeitas. A morte de Jesus satisfê-las todas e satisfê-las para sempre. Qual é a prova disto para a consciência despertada? O grande fato da ressurreição. Um Cristo ressuscitado proclama plena libertação do crente — a sua perfeita absolvição de toda a demanda possível. "O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (Romanos 4:25). Para um crente não saber que o seu pecado foi tirado, e tirado para sempre, é fazer pouco caso do sangue da sua divina oferta de expiação. É negar que se fez perfeita apresentação — a aspersão do sangue sete vezes perante o Senhor.

C. H. Mackintosh

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