quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O Verdadeiro Cristianismo

(Comentário Êxodo 13)

O verdadeiro Cristianismo não é senão a manifestação da vida de Cristo implantada em nós pela operação do Espírito Santo, segundo os desígnios eternos de Deus de graça soberana; e todas as nossas obras antes desta implantação de nova vida não são mais que "obras mortas" (Hebreus 6:1), das quais a nossa consciência deve ser purificada do mesmo modo que das "más obras" (Hebreus 9:14).

A expressão "obras mortas" inclui todas as obras que os homens fazem com o fim de obter a vida. Se alguém busca a vida, é evidente que ainda não a tem. É possível que seja muito sincero em a buscar, mas a sua própria sinceridade forma evidente o fato que, por enquanto, ainda não a alcançou. Assim, pois, todo o esforço feito com o fim de obter a vida é obra morta, tanto mais que é feito sem a vida de Cristo, a única vida verdadeira, e a única fonte de onde podem emanar as boas obras. E note-se que não é uma questão de "obras más"; ninguém pensaria em obter a vida por tais meios. Não! Pelo contrário, ver-se-á como as pessoas recorrem constantemente às "obras mortas" a fim de aliviarem a Sua consciência sob a sensação das "obras más", ao passo que a revelação divina nos ensina que a consciência necessita de ser purificada tanto de umas como das outras.

Além disso, quanto à justiça, lemos que "todas as nossas justiças são como o trapo da imundícia" (Isaías 64:6). Não é dito aqui apenas que "todas as nossas iniquidades são como trapo da imundícia". Quem ousaria dizer o contrário? Porém o fato é que os melhores frutos que podemos produzir, sob a forma de piedade e da justiça, são representados nas páginas da verdade eterna como "obras mortas" e "trapo da imundícia". Os mesmos esforços que fazemos para conseguir a vida provam que estamos mortos; e os nossos esforços para alcançarmos a justiça provam apenas que estamos vestidos com trapos de imundícia. É só como possuidores da vida eterna e da justiça divina que podemos andar no caminho das boas obras que Deus nos preparou. As obras mortas e os trapos imundos não podem ser permitidos nesse caminho. Ninguém senão "os resgatados do Senhor" (Isaías 51:11) pode passar por ele. Era na qualidade do povo remido que Israel guardava a festa dos pães asmos e santificava os primogênitos ao Senhor. Já consideramos a primeira destas ordenações; quanto a esta última é rica em instruções.

C. H. Mackintosh

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Farás saber a teu Filho

(Comentário Êxodo 13)

Depois é apresentada a razão por que estas duas cerimônias deviam ser praticadas. "E, naquele mesmo dia, farás saber a teu filho, dizendo: Isto é pelo que o Senhor me tem feito, quando eu saí do Egito... Se acontecer que teu filho no tempo futuro te pergunte, dizendo: Que é isto? Dir-lhe-ás: O Senhor nos tirou com mão forte do Egito, da casa da servidão. Porque sucedeu que, endurecendo-se Faraó, para não nos deixar ir, o Senhor matou todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito do homem até ao primogênito dos animais; por isso, eu sacrifico ao Senhor os machos de tudo o que abre a madre; porém, a todo primogênito de meus filhos eu resgato".

Quanto mais compreendemos, pelo poder do Espírito Santo, a redenção que há em Cristo Jesus, tanto mais decidida será a nossa separação, e real será a nossa consagração. O esforço para alcançar uma ou outra destas coisas antes que a redenção seja conhecida é o trabalho mais inútil que pode imaginar-se. Todo o nosso trabalho deve ser feito "pelo que o SENHOR tem feito", e não para obtermos d'Ele alguma coisa. Os esforços para se conseguir a vida e a paz provam que ainda somos estranhos ao poder do sangue; ao passo que os frutos de uma redenção experimentada são para louvor d'Aquele que nos redimiu. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2:8-10). Deus preparou-nos um caminho de boas obras para que andássemos nelas; e por meio da Sua graça prepara-nos para andarmos nesse caminho. É somente como salvos que podemos andar num tal caminho. Fosse de outra maneira, poderíamo-nos gloriar; mas visto que nós próprios somos tanto obra de Deus como o caminho no qual andamos, não há lugar algum para jactância.

C. H. Mackintosh

Santifica-me todo Primogênito

(Comentário Êxodo 13)

Os primeiros versículos deste capítulo ensinam-nos claramente que o afeto pessoal e a santidade são frutos do amor divino produzidos naqueles que são os seus felizes objetos. A consagração dos primogênitos e a festa dos pães asmos são apresentados aqui na sua relação imediata com a libertação de Israel do país do Egito. "Santifica-me todo primogênito, o que abrir toda madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é. E Moisés disse ao povo: Lembrai-vos deste mesmo dia, em que saístes do Egito, da casa da servidão; pois, com mão forte o Senhor vos tirou daqui; portanto, não comereis pão levedado" (versículos 2-3). E logo em seguida: "Sete dias comerás pães asmos; e ao sétimo dia haverá festa ao Senhor. Sete dias se comerão pães asmos, e o levedado não se verá contigo, nem ainda fermento será visto em todos os teus termos" (versículos 6-7).

C. H. Mackintosh

domingo, 25 de novembro de 2018

Quem Podia Comer a Páscoa?

(Comentário Êxodo 12)

Terminaremos os nossos comentários sobre esta parte do capítulo passando por alto os versículos 43 a 49. Estes versículos ensinam-nos que, embora fosse privilégio de todo o verdadeiro israelita comer a páscoa, nenhum estrangeiro incircunciso podia participar dela. "Nenhum filho de estrangeiro comerá dela... toda a congregação de Israel o fará". A circuncisão era necessária antes que a páscoa pudesse ser comida. Por outras palavras: é preciso que a sentença de morte seja lavrada sobre a natureza antes de nos podermos nutrir de Cristo inteligentemente, quer seja como o fundamento de paz ou o centro de união. A circuncisão tem o seu antítipo na cruz.

Só os varões eram circuncidados. A mulher era representada no varão. Assim, na cruz, Cristo representou a Sua Igreja, e, por isso, a Igreja está crucificada com Cristo; contudo, vive pela vida de Cristo, conhecida e manifestada na terra pelo poder do Espírito Santo. "Porém, se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a Páscoa ao Senhor, seja-lhe circuncidado todo o macho, e então, chegará a celebrá-la, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela" (versículo 48). "Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus" (Romanos 8:8).

A ordenação da circuncisão formava a grande linha de demarcação entre o Israel de Deus e todas as nações que havia à face da terra; e a cruz do Senhor Jesus Cristo forma a linha da demarcação entre a Igreja e o mundo. Fosse qual fosse a posição que um homem ocupava ou as vantagens que tivesse não podia ter parte em Israel até que se submetesse à operação do corte da sua carne. Um mendigo circuncidado estava mais perto de Deus que um rei incircunciso. Assim também agora não pode haver participação nos gozos dos remidos de Deus, senão pela cruz de nosso Senhor Jesus Cristo; e essa cruz abate todas as pretensões, derriba todas as distinções e une todos os remidos numa congregação santa de adoradores lavados pelo sangue. A cruz forma uma barreira tão elevada e uma defesa de tal modo impenetrável que nem um sequer átomo da terra ou da velha natureza pode atravessá-la para se misturar com "a nova criação". "E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo" (2 Coríntios 5:18).

Porém, na instituição da páscoa não só foi sustentado o princípio de separação entre Israel e os estranhos, como a unidade de Israel foi também claramente posta em vigor. "Numa casa se comerá; não levarás daquela carne fora da casa, nem dela quebrareis osso" (versículo 46). Existe nesta passagem uma figura tão formosa quanto o podia ser de "um corpo e um Espírito" (Efésios 4:4). A Igreja de Deus é uma só. Deus contempla-a como tal, sustém-na como tal, e manifestá-la-á como tal à vista de anjos, homens e demônios, apesar de tudo quanto se tem feito para pôr obstáculos a essa unidade santa. Bendito seja Deus, a unidade da Sua Igreja está tão bem guardada como o é a sua justificação, aceitação e segurança eterna. "Ele guarda todos os seus ossos; nem sequer um deles se quebra" (Salmos 34:20). "Nenhum dos seus ossos será quebrado" (João 19:36). Apesar da rudeza e zelo da soldadesca romana, e não obstante todas a influências hostis que têm estado em operação, através dos séculos, o corpo de Cristo é um só e a sua unidade nunca poderá ser quebrada. "HÁ UM SÓ CORPO E UM SÓ ESPÍRITO" (Efésios 4:4); e isto, além disso, aqui, no mundo. Feliz daqueles que têm recebido fé para reconhecer esta preciosa verdade e fidelidade para a porem em prática, nestes últimos dias, não obstante as dificuldades quase insuperáveis que acompanham a sua profissão e prática! Creio que Deus reconhecerá e honrará os tais.

Que o Senhor nos guarde do espírito da incredulidade que nos induziria a julgar por vista, em vez de julgarmos à luz da Sua Palavra imutável!

C. H. Mackintosh

sábado, 24 de novembro de 2018

O Vestido de Israel

(Comentário Êxodo 12)

Contudo, não esgotamos ainda o ensino desta tão instrutiva ordenação. Consideramos a posição de Israel e a comida de Israel, vamos agora falar do estado de Israel.

"Assim, pois, o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a Páscoa do Senhor" (versículo 11). Deviam comer a páscoa como um povo que estava preparado para deixar atrás de si o país da morte e das trevas, da ira e do juízo, e marchar em demanda da terra da promessa — a herança que lhes estava reservada. O sangue que os havia preservado da sorte dos primogênitos do Egito era também o fundamento da sua libertação da escravidão do Egito; e agora só lhes restava porem-se em marcha e andar com Deus para a terra que manava leite e mel. É verdade que não haviam ainda atravessado o Mar vermelho; tampouco haviam andado o "caminho de três dias". Contudo, eram já, em princípio, um povo redimido, um povo separado, um povo de peregrinos, um povo esperançoso, um povo que dependia de Deus; e era preciso que os seus trajos estivessem de harmonia com a sua presente condição e o destino futuro. Os lombos cingidos indicavam uma separação rigorosa de tudo aquilo que os rodeava e mostravam que eles eram um povo preparado para servir. Os pés calçados mostravam que estavam prontos a abandonar o seu estado presente; enquanto que o cajado era o emblema significativo de um povo de peregrinos numa atitude de apoio em qualquer coisa que estava fora de si mesmos. Que característicos preciosos! Prouvera a Deus que fossem vistos em cada membro da família dos Seus remidos.

Prezado leitor, meditemos "estas coisas" (l Tm 4:15). Pela graça de Deus, experimentamos a eficácia purificadora do sangue de Jesus; neste estado é nosso privilégio alimentarmo-nos da sua adorável Pessoa e deleitarmo-nos nas Suas "riquezas incompreensíveis" (Efésios 3:8), tendo parte nos Seus sofrimentos e sendo feitos "conforme à sua morte" (Fp 3:10). Mostremo-nos, pois, com pães asmos e ervas amargosas, os lombos cingidos, os sapatos nos pés, e o cajado na mão. Numa palavra: que sejamos notados como um povo santo, um povo crucificado, vigilante e diligente—um povo que marcha, claramente, ao encontro de Deus no caminho para a glória—, "destinado para o reino". Que Deus nos conceda penetrar na profundidade e no poder de todas estas coisas; de forma que não sejam apenas teorias, ou princípios de conhecimento bíblico e simples interpretação; mas, sim, realidades vivas, divinas, conhecidas por experiência e manifestadas na vida, para glória de Deus.

C. H. Mackintosh

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A Comunhão e a Paz

(Comentário Êxodo 12)

"E nada dele deixareis até pela manhã; mas o que dele ficar até pela manhã, queimareis no fogo" (versículo 10). Este mandamento ensina-nos que a comunhão da congregação de Israel não devia ser, de modo nenhum, separada do sacrifício sobre o qual se baseava essa comunhão. O coração deve guardar sempre a lembrança viva de que toda a verdadeira comunhão está inseparavelmente ligada com a redenção efetuada. Crer que se pode ter comunhão com Deus sobre qualquer outro fundamento é imaginar que Deus pode ter comunhão com o pecado que há em nós; e pensar em comunhão com o homem, com base em qualquer outro fundamento, é apenas formar uma união impura, da qual nada pode resultar senão confusão e iniquidade. Em suma: é necessário que tudo esteja fundamentado sobre o sangue e inseparavelmente ligado com ele. Este é o significado simples da ordenação que mandava comer o cordeiro da páscoa na mesma noite em que o sangue havia sido derramado. A comunhão não pode ser separada do seu fundamento.

Portanto, que belo quadro nos oferece a congregação de Israel protegida pelo sangue e comendo em paz o cordeiro assado com pães asmos e ervas amargosas! Nenhum temor de juízo, nenhum temor da ira do Senhor, nenhum temor da tempestade terrível da justa vingança, que, à meia-noite, ia varrer, veementemente, toda a terra do Egito! Tudo estava em paz profunda atrás das portas manchadas de sangue. Nada tinham a temer de fora; e nada dentro podia perturbá-los, salvo o fermento, que teria dado um golpe mortal em toda a sua paz e bem-aventurança. Que exemplo para a Igreja! Que exemplo para o cristão! Que Deus nos ajude a contemplarmo-lo com um olhar iluminado e um espírito dócil!

C. H. Mackintosh

domingo, 18 de novembro de 2018

As Ervas Amargas

(Comentário Êxodo 12)

Vemos nas "ervas amargosas", que deviam acompanhar os pães asmos, a significação e mesma utilidade moral. Não podemos desfrutar da participação dos sofrimentos de Cristo sem recordarmos o que tornou necessários esses sofrimentos, e esta recordação deve, necessariamente, produzir um espírito de mortificação e submissão, ilustrado, de um modo apropriado, nas ervas amargosas da festa da páscoa. Se o cordeiro assado representa Cristo sofrendo a ira de Deus em Sua Própria Pessoa na cruz, as ervas amargosas mostram que o crente reconhece a verdade que Ele sofreu por nós. "O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Isaías 53:5).

Por causa da leviandade dos nossos corações é bom compreendermos a profunda significação das ervas amargosas. Quem poderá ler os Salmos 6, 22, 38, 69, 88, e 109, sem compreender, em alguma medida, o significado dos pães asmos com ervas amargosas? Uma vida praticamente santa, unida a uma profunda submissão de alma, deve ser o fruto da comunhão verdadeira com os sofrimentos de Cristo, porque é de todo impossível que o mal moral e a leviandade de espírito possam subsistir na presença desses sofrimentos.

Mas, pode perguntar-se se não sente a alma um gozo profundo no conhecimento que Cristo levou os nossos pecados, e que esgotou, inteiramente, por nós, o cálice da ira justa de Deus? Por certo que é assim. E este é o fundamento inabalável de todo o nosso gozo. Mas, poderemos nos esquecer que foi "por nossos pecados" que Ele sofreu? Poderemos perder de vista a verdade, poderosa para subjugar a alma, que o bendito Cordeiro de Deus inclinou a Sua cabeça sob o peso das nossas transgressões? Certamente que não. Devemos comer o nosso cordeiro com ervas amargosas; as quais, não se esqueça, não representam as lágrimas de um sentimentalismo desprezível e superficial, mas sim as experiências profundas e verdadeiras de uma alma que compreende com inteligência espiritual o significado e efeito prático da cruz.

Contemplando a cruz, descobrimos nela aquilo que elimina a nossa culpa e dá doce paz e gozo. Porém, vemos que ela põe de lado, inteiramente, também, a natureza humana—representa a crucificação da "carne" e a morte do "homem velho" (veja-se Romanos, 6:6; Gálatas 2:20; 6:14; Colossenses 2:11). Estas verdades, nos seus resultados práticos, implicam muitas coisas "amargosas" para a nossa natureza: exigem a renúncia própria, a mortificação dos nossos membros que estão sobre a terra (Colossenses 3:5), e a consideração do "homem velho" como morto para o pecado (Romanos 6). Todas estas coisas podem parecer terríveis de encarar; porém, uma vez que se há entrado na casa cujas portas estão manchadas com o sangue vêem-se de uma maneira muito diferente. As mesmas ervas que, para o gosto de um egípcio, eram, sem dúvida, tão amargosas, formavam uma parte integral da festa de redenção de Israel. Aqueles que são remidos pelo sangue do Cordeiro, e conhecem o gozo da comunhão com Ele, consideram como uma "festa" tirar o mal e ter a velha natureza no lugar da morte.

C. H. Mackintosh

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